Após recepção de gala, Honda espera retribuir ao Botafogo: “Quero ser exemplo para as crianças”

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Keisuke Honda espera que esse domingo seja o início da retribuição de todo o carinho dado pela torcida desde que chegou ao Botafogo. Recepcionado por uma multidão alvinegra, seja no aeroporto ou no Nilton Santos, o japonês tem como meta deixar um legado à altura da expectativa do torcedor.

A meta é ousada e começa nesta tarde, às 16h (de Brasília), no Nilton Santos, quando o camisa 4 entrará em campo pela primeira vez com a camisa da estrela solitária. Em entrevista ao Esporte Espetacular e ao GloboEsporte.com, o meia foi direto: quer jogar bem para ser referência, principalmente para os pequenos torcedores.

– Eu quero ser um modelo para as crianças. Quando eu era criança, Pelé, Zico e muitos grandes jogadores me deram sonhos e esperança. E eu os segui. Agora é a minha vez. Então, quero dar um bom exemplo para todas as crianças no mundo. Pelo menos estou tentando. Não digo que sou perfeito, mas pelo menos tento o meu melhor – disse.

A expectativa é imensa, mas a estreia perdeu um pouco do brilho. Isso porque o principal foco de Honda, o torcedor, acompanhará apenas à distância os primeiros toques na bola do novo astro. Por conta do coronavírus, todos os jogos nas capitais de Rio e São Paulo terão portões fechados. A entrevista com o japonês foi feita há duas semanas, quando a crise ainda era menor no Brasil mas já gerava preocupação mundial.

– Para ser sincero, estou preocupado. Toda minha família está no Japão. E escolas, eventos, shows e jogos estão sendo cancelados. A gente tem passado por grande problema. Não tem sido problema apenas de saúde, mas também econômico. Talvez a Olimpíada seja adiada, mas eu espero que esse problema passe o mais rápido possível e que a Olimpíada aconteça no verão (meio do ano no Japão) – afirmou.

Treino e aulas de português

Mais de um mês se passou desde a apresentação com 13 mil pessoas no Nilton Santos, no dia 8 de fevereiro. Desde então, o jogador teve uma rotina intensa. Dentro de campo, suou para recuperar a forma. Fora dele, ainda tenta se adaptar ao clube e ao Brasil e até contratou um professor de português para aprender a nova língua. O que poderia ser uma rotina estressante, mas Honda explicou porque não.

– Quando eu cheguei aqui e tive o primeiro treino com eles, senti os jogadores muito carinhosos comigo. Não sei se é parte das características brasileiras, mas eu estava feliz em estar aqui. Essa foi a primeira impressão que tive. Todo mundo, não só os jogadores. As pessoas que caminham por aqui, cuidam muito de mim.

– Mas eu não sinto que elas estão me ajudando porque é o trabalho delas. As pessoas fazem isso por mim porque vem do coração. São amistosos. É natural. Não senti como se esperassem algum proveito ou benefício sobre isso. Eles só fazem porque eu preciso da ajuda – completou.

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Motivo de escolher o Botafogo

– Eu já falei sobre isso na apresentação. O motivo de eu ter vindo para cá é que eu recebi muitas mensagens dos torcedores nas redes sociais. Nunca recebi tantas mensagens de torcedores antes. Essa ação me fez pensar em jogar pelo Botafogo e negociar com o clube. O início foi por causa dos torcedores. Sim (as mensagens o tocaram). Eles estavam muito animados. A paixão deles me fez vir.

Vida turística

– Infelizmente eu não sou tão turista como outros japoneses. Mas eu consegui ir ao shopping comprar coisas para mim.

Pessoas enlouqueceram no shopping?

– Depende. Algumas pessoas, sim. Mas tudo bem, sabe? Sei como é o meu trabalho. Faz parte do meu trabalho tirar foto com eles. Estou feliz por fazer isso. Fui à praia também. Mas não visitei muitos lugares legais até agora. Talvez no futuro.

Forma física

– Eu não acho que estou na melhor forma física ainda porque não jogo há um bom tempo. Mas pelo menos mantenho a gordura corporal. Então eu tento me manter em forma o máximo possível. Não acho que eu precise de mais tempo para me preparar para os jogos. Acho que consigo jogar se Paulo me escolher. Mas normalmente acho que os jogadores que não atuam há um bom tempo precisam de mais tempo do que eu.

– Porque normalmente os jogadores controlam a gordura corporal durante a temporada, mas não fora. Quando estão de férias eles querem comer o que der vontade, e eu não quero fazer isso. Eu sempre quero me controlar o máximo possível. Digo isso como profissional, não só como jogador de futebol. Talvez essa seja minha característica, ser profissional. Não somente durante a temporada, mas o tempo todo. Até para a minha vida. Eu preciso me controlar.

Recepção no aeroporto

– Foi incrível. Nunca tinha tido essa visão quando estive em um aeroporto. Eu nem imaginava que jogaria no Brasil e que os torcedores estariam esperando por mim, nem que seriam tantas pessoas. Eu fico orgulhoso. Tenho que retribuir o máximo que puder antes de ir embora. Não é fácil, mas vou tentar. Eu tenho que correr pelos brasileiros.

Influência de Nelsinho Baptista

– Nelsinho é como se fosse o meu pai brasileiro. Quando eu tinha 17 anos ele me chamou e disse: “Keisuke, você deveria vir para o meu time. Quero te ensinar muitas coisas. Você pode se tornar um bom jogador, mas você tem que vir”. Ele disse. Eu queria aprender futebol com ele no Nagoya Grampus. E minha carreira profissional começou lá. Ele me ensinou um monte de coisa como jogador profissional. Agradeço muito por ele. Não falo com ele há um bom tempo. Foi uma época muito boa. Agradeço muito por tudo dele.

Histórico na carreira até chegar ao Botafogo

– Eu sempre quis jogar Copa do Mundo, porque quando eu era uma criança, meu pai mostrava vídeo do Pelé na Copa do Mundo. Então eu queria jogar a Copa do Mundo. Virei profissional quando fiz 18 anos e foquei no meu sonho, que era jogar na Europa no futuro e também jogar na Copa do Mundo. Fui para Holanda quando tinha 21 anos. Isso foi um pequeno sonho se tornando realidade. Mas, não estava completo porque eu queria jogar uma Copa do Mundo. Então continuei treinando o máximo possível.

– Quando tinha 24 anos, meu grande sonho de jogar a Copa do Mundo, se tornou realidade. Foi incrível quando eu estive na África do Sul. Depois disso fui para o Milan e também foi meu sonho. Uma experiência incrível, com jogadores top de linha. Kaká e Robinho estiveram lá. Aprendi um monte de coisas sobre o que fazer como profissional. Depois eu fui para o México, Austrália e voltei para a Holanda. Depois vim para cá. Passei por muitos países jogando futebol então passei por muitas experiências. Fico muito feliz por ter conhecido tanta gente.

– Por outro lado, não terminou, ainda. Meu desafio continua com o Botafogo e os torcedores. É por isso que estou dando o meu melhor. Tenho que fazer um esforço e preciso ganhar. Não vai ser fácil, mas quero ser feliz com os jogadores, torcedores e pessoas que trabalham para o Botafogo. Estou aqui. Essa é a minha carreira.

Substituindo Seedorf no Milan e no Botafogo

– Sim, é o destino. Não imaginava que estaria substituindo Seedorf no Milan e depois ele foi treinar o Milan vindo do Botafogo. E agora estou jogando aqui. É esquisito, mas é fato. É uma boa memória.

Gols em três Copas do Mundo e participação em lista com jogadores como Messi, Cristiano Ronaldo e Pelé

– Eles são totalmente diferente de mim. Estou na mesma lista (que Messi, Cristiano Ronaldo e Pelé), sim. Mas eles marcaram mais gols do que eu e tem muitos prêmios a mais do que eu. Eles jogaram e tiveram mais sucesso do que eu. Não posso dizer que estou na mesma lista que eles. Eu não posso vencê-los como jogador de profissional, mas eu quero ser um ser humano melhor do que qualquer pessoa. Isso eu posso continuar depois que terminar minha carreira, até morrer.

– Talvez, nisso eu possa ser melhor do que eles. Como um jogador de futebol, é impossível me comparar a eles. Eles são fenomenais. Essa é a minha paixão como uma pessoa que gosta de desafios: continuar jogando futebol, vir para cá, dar sonhos e esperanças para as pessoas. Dar algo especial. Não apenas habilidade de futebol. É por isso que digo que sou um educador.

Vontade de jogar a Olimpíada

– Sim, eu sonho. Quero jogar a Olimpíada neste ano. Quando acabou a Copa do Mundo de 2018, eu decidi que não iria jogar mais pela seleção. Mas minha paixão falou mais alto, quis jogar a Olimpíada, então pensei: “vamos sonhar de novo”. Não é um sonho como o que tinha quando criança, de jogar uma Copa do Mundo, mas em Tóquio, pela Olimpíada, é especial para mim. Se for possível, quero jogar. Esse é meu novo desafio.

Trabalhos sociais

– Eu percebi que o mundo não é justo. Quando nasci no Japão, apenas segui meu sonho de ser um jogador de futebol. Mas percebi que não era comum para pessoas que nasceram em países pobres. Eles não podem ir à escola, não podem seguir os próprios sonhos. Meu normal e o deles é totalmente diferente. Percebi isso quando fui para a Copa na África do Sul. Visitei um orfanato. Ouvi que as crianças que não tinham pais viravam criminosos, pegavam Aids ou algo do tipo. Aquilo me machucou. Eu sabia que existiam notícias ruins ao redor do mundo quando era criança.

– Mas é algo totalmente diferente você ver pela televisão e diretamente olhar para as crianças naquela situação. Comecei a pensar na economia social, qual a razão e a diferença entre nós e as pessoas pobres. Não acho que seja nada diferente. Somos iguais. Acredito que se eu nascesse em um país pobre, não viraria jogador de futebol. Porque eu não saberia como fazer. Minha vida normal seria crescer em um lugar pobre, procurar por comida, ganhar dinheiro e comprar comida para hoje ou amanhã. Eles não podem pensar a longo prazo. Mas eu pude porque nasci no Japão.

– Então, o que eu poderia fazer? Foi isso que pensei quando os vi. Comecei a investir um dinheiro nessa questão social. Depois, continuei a investir em startups e empresários que desejam mudar o mundo. Seja na área de tecnologia ou algo assim. Essa é minha paixão. Pelo menos eu vou tentar mudar alguma coisa. Mas eu não posso fazer sozinho. Por isso estou falando aqui. Quero encontrar alguém que possa resolver esse tipo de problema. Algum especialista em conhecimento ou tecnologia, questões financeiras… Eu preciso de ajuda para resolver esse problema junto.

Redes sociais

– Essa é a conexão que tenho que ter com as pessoas mais pobres e as pessoas normais. Eles não sabem o que devem fazer. Não conseguem dizer algo para inspirar as pessoas assim como eu consigo. Por isso que eu comecei a me comunicar pelas redes sociais. No início eu não gostava de redes sociais, isso há uns cinco, 10 anos.

– Eu não imaginava que usaria as redes sociais todos os dias, como hoje. Isso me surpreende também. Acho que é importante me comunicar com as pessoas nas redes sociais. Eu não quero postar só coisas engraçadas. Eu quero ser sério, ensinar e inspirá-los também na vida. Senão não quero fazer isso.

Como está o português?

– (Responde em português) Bom! Tudo bem. O que mais? Sou Keisuke Honda. Pouco a pouco eu falo português. Entendo pouco – mas continua falando outras coisas.

– Chuta, eu, vira, ladrão. Sojinho… Sozinho (em português). Palavrões eu sei alguns, porque joguei com muitos brasileiros no Japão também (risos). Eu estudo(em português).

Por que aprender português?

– Eu quero falar com meus companheiros, quero saber qual o problema que temos com táticas e pessoas. Às vezes as pessoas têm problemas na família, questões pessoais. Eu quero falar com eles. Se eu falar com eles, talvez eu possa ajudá-los a abrir a cabeça e talvez a gente possa combinar em campo muito mais do que sem falar. Essa é a minha filosofia: conhecê-los.

Organização

– Eu acho que é normal para jogadores de futebol. Depois do treino eu quero recuperar meu corpo o mais rápido possível para o treino do dia seguinte. Quero que meu corpo esfrie com a água gelada. É uma das minhas rotinas. Depois de treinos mais duros eu faço massagem. Para mim é muito normal. Não sou uma pessoa muito de limpar. Eu também jogo lixo. Não gosto muito de limpar.

Churrasco

– Churrasco (repete em português duas vezes). Gosto churrasco (em português). É uma das comidas mais tradicionais do Brasil. Não sei porque esse restaurante não expande para o mundo inteiro como restaurantes de comida japonesa. Churrasco deveria estar em todo o mundo porque, sim, é incrível. Já comi muitas vezes. Eu gosto.

Fonte: GE

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