Jogador, técnico, dirigente e professor: histórias de um herói do Botafogo no Torneio de Caracas

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O reconhecimento das entidades oficiais não é certo, mas o pleito do Botafogo pelos títulos mundiais serve de estímulo para o torcedor conhecer ou revisitar um momento que é considerado o maior desde a criação do clube. E os personagens daquelas conquistas. Histórias como a do ex-atacante Humberto.

Atleta do clube nos anos 60, o ex-jogador ainda vive para o futebol cinco décadas depois. Nesse tempo, foi também técnico e dirigente dentro e fora do Botafogo, além de professor de universitários e aspirantes a treinadores. Conseguiu duas graduações, mestrado e, em 2012, voltou de Portugal com o doutorado. Isso tudo depois de, 50 anos atrás, ter sido um dos heróis alvinegros na conquista da Pequena Taça do Mundo de 1970.

– Foi uma partida muito difícil para o Botafogo. Só jogamos o que a gente sabia jogar no segundo tempo. Lembro que o Paulo Cezar fez um gol e eu fiz outro. Em um jogo desses, entre duas grandes equipes, fazer um gol é um grande feito. E eu estava em um time extremamente forte, era muito difícil jogar. Quando fiz o gol, valorizei muito porque representava essa conquista. Passei oito anos no Botafogo, tinha esse espírito – disse Humberto ao GloboEsporte.com.

O jogo a que ele se refere é a vitória de 2 a 1 sobre o Spartak Trnava, equipe da antiga Checoslováquia, em 6 de fevereiro daquele ano. Depois de sair do primeiro tempo atrás no placar, o Alvinegro buscou a virada na etapa final. Paulo Cezar Caju marcou o gol de empate e coube a Humberto sacramentar o triunfo nos minutos finais. Este resultado somado ao 1 a 0 sobre a União Soviética, três dias antes, deu o título ao time comandado pelo técnico Zagallo, que levantou a taça no Estádio Olímpico de Caracas.

História vista de dentro

Esta é uma das três conquistas que o clube quer reconhecidas como títulos mundiais. Na capital da Venezuela, o Bota venceu o mesmo torneio em 1967 e 1968. Foi um momento em que a equipe colecionou outros troféus, como Campeonatos Cariocas e a Taça Brasil, reconhecida como Campeonato Brasileiro. Época, também, de muitos craques que serviram a seleção brasileira e fizeram história.

Humberto esteve presente em praticamente toda a década áurea do Botafogo. Chegou ao clube em 1963, no antigo juvenil, e no ano seguinte subiu ao profissional. Teve a oportunidade de conviver com muitos dos grandes ídolos do clube. Para citar alguns: Nilton Santos, Garrincha, Didi, Gerson, Zagallo… Nem sempre foi possível jogar, mas ele valoriza a chance de ver de perto a história do time de coração acontecer.

“Vivi isso intensamente, até porque sou torcedor do Botafogo. Vi meu primeiro jogo no Maracanã aos oito anos. 11 anos depois, estava fazendo o meu primeiro jogo no mesmo Maracanã”.

– A minha primeira excursão foi em janeiro de 1965. Foi a última viagem do Garrincha como jogador do Botafogo. Foram também Didi, Zagallo… Eu era centroavante, mas estreei no lugar do Zagallo, na ponta esquerda. O Botafogo tinha um time que ganhava muito, era difícil de bater. Naquela viagem, tivemos 10 vitórias e três empates, se me lembro bem – contou.

Do Botafogo à academia

O ano de 1970 não foi especial apenas dentro de campo. O ex-atleta conciliou os jogos e treinos com a sala de aula e, naquele ano, conseguiu o primeiro diploma, em administração de empresas. Como o sonho sempre foi ser treinador, Humberto também se formou em educação física e fez mestrado e doutorado, sempre com o futebol como tema.

Além de jogador, o ex-atacante também foi técnico do Botafogo nos anos 80. Duas décadas depois, voltou como dirigente das categorias de base. Mesmo fora de General Severiano, continuou ligado ao clube, que virou material de pesquisa. Em Portugal, na Universidade do Porto, fez Mané Garrincha virar assunto entre os acadêmicos.

– Fiz meu doutorado sobre o Garrincha como um herói mítico. Professores na Universidade do Porto analisam o futebol como uma religião, uma espécie de mitologia. Os estádios seriam os templos. E os clubes e jogadores são como deuses, semideuses. Esse é o verdadeiro significado de “mito” – explicou.

Coutinho e Ronaldo na Seleção

Fora do Botafogo, as voltas do mundo da bola fizeram Humberto ter papel importante no início das histórias de dois personagens da seleção brasileira. O maior foi Ronaldo Fenômeno, convocado pela primeira vez para as divisões de base do Brasil pelo ex-treinador.

– Lembro que, na época, muito pouca gente acreditava nele. O médico na época, o doutor Adilson de Castro, me pede para apontar o horizonte e mostrar o caminho do futuro para ele (veja na foto acima). Porque nós dois achávamos que ele seria um grande jogador. Depois daquele Sul-Americano ele foi para o Cruzeiro e começou a história dele no futebol – recordou.

Com a Seleção, a segunda história é uma aleatoriedade: Humberto foi colega de classe de Cláudio Coutinho, comandante do Brasil na Copa do Mundo de 1978. O encontro aconteceu oito anos antes daquele Mundial, em 1970, quando Coutinho ainda tentava entrar no mundo do futebol. A ponte para isso foi o ex-atacante, que ainda jogava no Botafogo na época.

– A UFRJ ficava do lado do Botafogo. Acabava o treino e eu partia direto para a aula, que era à noite. Naquelas aulas, quem sentou do meu lado e eu não conhecia ainda era o Cláudio Coutinho. A gente começou a conversar, ele viu que eu era jogador e pediu para eu apresentá-lo ao Zagallo e ao Chirol. Um dia, fomos em General Severiano. Foi ali que começou a vida dele no futebol. Depois, foi para a Seleção, o Flamengo… Essa história começou lá – conta.

Fonte: GE

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