1910 – BOTAFOGO, O GLORIOSO

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Time de 1910. A partir da esquerda (em pé): Coggin, Pullen e Dinorah; Rolando, Lulú e Lefévre (ao centro); e Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro (sentados).

A GRANDE CAMPANHA – O TÍTULO DE GLORIOSO – A REPERCUSSÃO NA
IMPRENSA – O DESEMPENHO DE CADA JOGADOR.

Diretoria de 1910. A partir da esquerda (em pé): Pedro Rocha, Alfredo Chaves, Edgard Pullen, Miguel Rafael de Pino e Anselmo Mascarenhas. Sentados: Italo Peterle, o presidente Joaquim Antonio de Souza Ribeiro e Alberto Cruz Santos.

No grande ano de 1910, inscreveram-se para o Campeonato Carioca, o Botafogo, o Fluminense, o America, o Haddock Lobo, o Riachuelo e o Rio Cricket.

Estreamos em 25 de maio, no campo do Fluminense, e sofremos uma inesperada derrota para o America por 4×1. O time adversário jogou usando de muita violência, impingindo-nos aquela que seria a única derrota alvinegra no certame. O nosso gol foi marcado Emanuel e nossa equipe formou com: Baena, Candido Vianna e Dinorah; Lefevre, Lulú Rocha e Pullen; Emanuel, Abelardo, Rolando, Mimi e Lauro.

No domingo, 5 de junho, jogamos em nosso campo de Voluntários da Pátria, que ocupamos de 1908 a 1911, e goleamos a equipe do Riachuelo por 9×1, gols de Abelardo (4), Mimi (2), Lefevre (1), Lulú (1) e Dinorah (1), sendo este de pênalti. O Botafogo atuou com: Baena, C.Vianna e Dinorah; Rolando, Lulú e Pullen; Emanuel, Aberlado, Lefévre, Mimi e Lauro.

A 26 de junho, no campo da Rua Guanabara, atual Pinheiro Machado, aconteceu o esperado jogo contra o Fluminense, com a estreia de Decio Viccari com a camisa alvinegra. Formamos com: Coggin, Pullen e Dinorah; Rolando, Lulú e Lefévre; Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro.

Nossa equipe, composta de jovens estudantes, dominou totalmente o bicampeão da cidade, derrotando-o por 3×1, e causando grande surpresa nos meios esportivos, pois o tricolor não era derrotado desde a goleada por 4×2 para o próprio Botafogo.

O primeiro tempo terminou empatado por 1×1, tendo Abelardo assinalado o nosso gol. Na fase final, nosso time demonstrou sua total superioridade, tendo Decio e Mimi marcado dois gols muito bonitos.

O certame prosseguiu em 3 de julho quando jogamos em Voluntários da Pátria e o onze botafoguense aplicou uma goleada de 7×0 sobre a equipe do Haddock Lobo, tentos assinalados por Abelardo (3), Decio (3) e Mimi (1) e a equipe foi: Baena, Pullen e Dinorah, Mauricio, Rolando e Lefévre, Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro.

Uma semana depois, em 10 de julho, ainda no nosso campo de Voluntários da Pátria, disputamos o último jogo do turno e o Botafogo obteve nova goleada, desta feita contra o Rio Cricket por 6×0, com gols de Flavio (2), Emanuel (1), Rolando (1), Mimi (1) e Decio (1), jogando com: Baena, Pullen e Dinorah; Rolando, Lulú e Lefévre; Emanuel, Flavio Ramos, Decio, Mimi e Lauro.

O Botafogo estreou no returno em 7 de agosto, recebendo o Rio Cricket em nosso campo e com outra grande atuação goleou por 5×0, tentos marcados por Lauro (2), Mimi (1), Decio (1) e Abelardo (1), formando com: Baena, Pullen e Dinorah; Juca Couto, Lulú e Rolando, Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro.

Em 4 de setembro, jogando no campo do Fluminense, nossa equipe liquidou a do Riachuelo por 15×1, gols assinalados por Abelardo (7), Decio (3), Mimi (3), Mimi (3), Emanuel (1) e Rolando (1). O time foi Baena, Pullen e Dinorah; Rolando, Lilú e Lefévre; Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro.

Uma semana após, em 11 de setembro, nossa equipe, apesar de desfalcada à última hora de Dinorah, que havia sofrido uma queda, revidou a derrota da estreia ao vencer com grande categoria o America por 3×1, gols de Lauro, Decio e Mimi. Na nossa meta jogou Coggin, Lefévre jogou de back (zagueiro) e Mauricio Silva em seu lugar. O time formou com: Coggin, Pullen e Lefévre; Mauricio, Lulú e Rolando; Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro.

Chegou a esperada tarde de 25 de setembro e recebemos o Fluminense em nosso campo de Voluntários da Pátria, para a disputa do grande clássico da época, formando com Coggin, Pullen e Dinorah; Rolando, Lulú e Lefévre; Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro.

Em um sensacional primeiro tempo, nosso meia Abelardo Delamare, com o público em delírio, marcou três gols. Na segunda etapa, em uma investida do tricolor Cox , Lulú, desejando passar a bola ao goleiro Coggin, marcou contra nossas próprias redes. 3×1, Botafogo. O Botafogo reagiu de forma espetacular e assinala mais três tentos, dois de Decio e um de Mimi, completando a fantástica contagem de 6×1. O Botafogo era o campeão, sob o delírio de uma torcida totalmente alucinada de alegria. Nascia o Glorioso!

O grande certame encerrou-se no domingo seguinte, 2 de outubro, em Voluntários da Pátria. Nosso adversário, o Haddock Lobo foi a campo com apenas oito jogadores, tendo o Glorioso alterado todas as posições, vencendo por 11×0, gols de Rolando (4), Abelardo (3), Decio (2), Lulú (1) e Dinorah (1), formando com: Pullen, Emanuel e Lauro; Lefévre, Abelardo e Mimi; Coggin, Rolando, Lulú, Dinorah e Decio.

O maior historiador do Botafogo em todos os tempos, Alceu Mendes de Oliveira Castro, assim descreveu a repercussão desse título em sua monumental obra, “O Futebol no Botafogo (1904-1950).

“Estava terminada a temporada e não é demais enaltecer, além da fibra dos campeões, os seus dedicados dirigentes. Cedemos, então a palavra a Abelardo: – “Devemos o campeonato de 1910 continuou Abelardo – em grande parte aos nossos diretores Pedro Martins da Rocha e Joaquim Souza Ribeiro, que muito trabalharam e concorreram, para que não faltássemos aos ensaios, procurando sempre harmonizar as nossas rusgas que eram passageiras. O primeiro destes, nas vésperas dos jogos, tinha a paciência de comparecer às festas, nos bairros mais próximos, que sabia frequentado pelos jogadores, afim de não consentir que passassem das 10 horas da noite nos folguedos. E era por isso que, nos dias de jogo, estávamos sempre aptos e dispostos a enfrentar o adversário”. (Entrevista a “O Sport”, em agosto de 1926).

Sobre o nosso grande quadro, transcreveremos, ainda, estas duas crônicas, uma de “Ilustração Sportiva”, de 1925e outra sobre o ataque, de “O Sport”, de 1926: 1ª – “É que o glorioso clube alvi-negro, apresentou-se, no referido ano, com uma formidável equipe, onde não havia falhas, quer na defesa quer no ataque. O gol estava ainda sob a vigilância de Ernesto Coggin que, se não foi um guardião de primeira ordem, jamais comprometeu a sua equipe. Em dois ou três jogos que o Botafogo disputou (contra os clubes fracos), figurou no goal botafoguense, ao invés do referido keeper inglês, Othon Baena que, no ano seguinte, notabilizou-se nesta posição figurando no team principal do Fluminense.

Dinorah e Pullen eram os zagueiros. O primeiro, astro de grande brilho, era o melhor back do ano sendo que o grande Victor, do Fluminense, já em decadência, figurou apenas em dois ou três jogos. Dinorah estava no apogeu de sua carreira esportiva. Zagueiro como poucos têm aparecido no Rio de Janeiro, conhecendo todos os segredos do futebol, o seu jogo firme e a sua calma assombrosa, fizeram delirar os muitos apaixonados do glorioso Botafogo Pullen, embora lhe fosse inferior, era, por sua vez, um excelente fullback. A linha média era impecável: Lefévre (vindo de S.Paulo), Lulú e Rolando, formavam uma formidável barreira aos mais terríveis e valorosos adversários. E era esta pujante defesa que amparava uma não menos pujante linha de frente, formada por cinco ardorosos elementos que não davam trégua aos antagonitas. Decio, completo center-foward, que viera de S.Paulo, era o comandante do quinteto. Para que êle fizesse um goal de longe, bastava uma ligeira folga do adversário, tal o ímpeto do seu shoot. Além disso, era perfeito nos “passes” e admirável nos “driblings”. Emanuel e Lauro, os dois ponteiros, eram velozes e centravam admiravelmente e, por fim, os dois meias, Mimi e Abelardo, eram os melhores forwards da época.

Qual a defesa (mesmo hoje em dia) que não respeitaria um inimigo em cuja linha estivesse o perigoso, leal e ligeiro Mimi Sodré – uma glória do futebol carioca – ou o impetuoso, terrível e inteligente Abelardo Delamare? Respondam, por nós, os halves daquele tempo”.

2ª – “O quinteto de avante que primeiro conseguiu fama entre nós foi, sem dúvida, o do Botafogo e que contava com o concurso de Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro. Êstes cinco homens fizeram bravuras no seu tempo, dando grande trabalho a tôdas a s defesas da época, que lhe foram antepostas. Combinavam com grande precisão e qualquer um dêles era ótimo arrematador. Neste ponto, um sobressaía: Abelardo que foi, sem favor, o maior foward do seu tempo. Possuidor de um chute fortíssimo, com qualquer pé, muito ágil, e de compleição robustíssima, com qualquer pé, arrematando, também, com perfeição.

Mimi foi também um extraordinário jogador, mau grado a sua estatura pouco elevada. De uma agilidade assombrosa, êle formou com o seu irmão Lauro a melhor ala esquerda da época. Os shoots eram sempre traiçoeiros e matematicamente colocados nos cantos. Passava com grande precisão, tendo uma noção nítida do verdadeiro futebol.

Lauro tinha como principal qualidade a sua ótima corrida e os centros esplêndidos que dava o pé esquerdo. Driblava muito pouco, mas, as suas escapadas eram quase sempre fatais ao quadro adversário.

Finalmente, Decio era um ótimo jogador, muito impetuoso, passando bem e com uma especialidade que o distinguia de todos os outros jogadores de futebol: chutava somente de bico de pé, mas com muita direção e extraordinária potência.

Êstes foram os primeiros cinco fowards que conseguiram um entendimento perfeito entre nós”.

RESUMO DA CAMPANHA:
Placares: America (1×4 – 3×1); Fluminense (3×1 – 6×1); Haddock Lobo (7×0 – 11×0); Riachuelo (9×1 – 15×1); Rio Cricket (6×0 – 5×0).

Total: Jogos, 10; Vitórias, 9; Derrotas, 1. Goals: pró, 66; contra, 9. Saldo: 57.

Jogaram: Emmanuel de Almeida Sodré, 10 jogos; Rolando Delamare, 10; Benjamin Sodré
(Mimi), 10; Lauro Sodré, 10; Hugh Edgar Pullen, 10; Dinorah Candido de Assis, 9; Carlos Lefévre, 9;
Luiz Martins da Rocha (Lulú), 9; Decio Viccari, 8; Othon Baena, 6; Ernest Coggin, 4; Candido Vianna, 2:
Mauricio Silva, 2: Flavio da Silva Ramos, 1; José Gonçalves do Couto (Juca), 1.
Total: 16 jogadores.

Artilheiros: Abelardo, 22; Decio, 14; Mimi, 11; Rolando, 6; Emanuel, 3; Lauro, 3; Lulú, 2;
Dinorah, 2; Flavio, 2; Lefévre, 1.
Total: 66 gols.

Aí está a magnífica campanha do GLORIOSO BOTAFOGO, Campeão Carioca de 1910.

Por: Luiz Felipe Carneiro de Miranda, Grande Benemérito e Historiador do BFR.


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