A queda de Montenegro

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Carlos Augusto Montenegro é acionado pelo Flamengo na Justiça — Foto: Vitor Silva/Botafogo

Presidente do Botafogo no título brasileiro de 1995, Carlos Augusto Montenegro exerce desde então enorme poder na política do clube. Chamado de “maior botafoguense da história” pelo atual presidente Durcesio Mello, ele influenciou eleições e decisões ao longo dos últimos 25 anos. 

Em dezembro de 2019, Montenegro iniciou uma nova página em sua trajetória no Botafogo, ao ser nomeado para o comitê executivo de futebol. Foi esse grupo que montou o elenco protagonista da pior campanha da história do Botafogo na Série A. Face mais visível do comitê, Montenegro se envolveu em polêmicas e conheceu o outro lado da relação com a torcida. De “eterno presidente” ele passou a ser considerado um dos principais responsáveis pelo rebaixamento iminente.

Em outubro de 2020, Montenegro concedeu uma entrevista coletiva virtual de cerca de quatro horas de duração, vista como um marco fora de campo na temporada do Botafogo. Com o fim do comitê, ele anunciou que deixaria os holofotes e cumpriu a palavra, enquanto o time perdia jogos em sequência nos meses seguintes. Procurado, ele não quis se manifestar para esta reportagem.

No momento em que o clube vive sua fase mais dramática, por onde anda o ex-presidente? Qual é a participação atual dele no Botafogo?

DINHEIRO E INFLUÊNCIA

Carlos Augusto Montenegro ajudou o Botafogo com empréstimos ao longo dos últimos anos - Ivo Gonzalez/Agência O Globo
Carlos Augusto Montenegro ajudou o Botafogo com empréstimos ao longo dos últimos anos – Ivo Gonzalez/Agência O Globo

Presidente do Ibope e alvinegro fanático de arquibancada, Montenegro começou a aparecer na política do clube no início da década de 1990. Foi protagonista na negociação junto à Vale – então chamada de Vale do Rio Doce – que devolveu ao Botafogo a sede histórica de General Severiano. O local havia sido vendido à empresa em 1977 e voltou às mãos alvinegras em 1992. Ali ele ganhou prestígio entre dirigentes e torcedores.

Já em sua gestão como presidente, de 1994 a 1996, Montenegro não viveu dias fáceis no Botafogo, que convivia com os salários e contas atrasadas. Mesmo assim, o time montado com baixo investimento na comparação com os rivais conquistou o título brasileiro em 1995 e gravou na história o nome do então presidente, junto aos de Túlio, Donizete, Gonçalves, Wagner e companhia.

A influência do cartola não terminou com o fim do mandato. Ele participou da maioria das gestões do Botafogo e ajudou a tomar decisões importantes, mesmo quando não teve cargo fixo nas diretorias. A cada eleição, vinha a pergunta: “Quem é o candidato do Montenegro?”. Em 2005, por exemplo, assumiu papel de consultor do presidente Bebeto de Freitas. Dois anos depois, foi VP de futebol.

A principal colaboração sempre veio do bolso. Presidente por décadas do Ibope, uma das maiores empresas de pesquisa de mercado da América Latina, o torcedor ilustre frequentemente socorreu o clube com empréstimos, seja para quitar salários, seja para pagamentos de contas básicas, como água e luz.

O Botafogo conseguiu devolver a maior parte do dinheiro emprestado, e Montenegro perdoou o restante da dívida doando o dinheiro ao clube. 

O COMITÊ

Ricardo Rotenberg, Montenegro, Nelson Mufarrej e Marcos Agostini faziam parte do comitê de futebol - Vitor Silva/Botafogo
Ricardo Rotenberg, Montenegro, Nelson Mufarrej e Marcos Agostini faziam parte do comitê de futebol – Vitor Silva/Botafogo

O status perante a torcida começou a mudar em dezembro de 2019, quando o Botafogo decidiu criar o comitê executivo de futebolpara o planejamento da temporada seguinte. Naquele momento, os componentes eram Montenegro, Ricardo Rotenberg, Nelson Mufarrej, Carlos Eduardo Pereira, Manoel Renha e Cláudio Good. CEP saiu ainda no início e, logo depois, entrou Marco Agostini.

Dono da palavra final na maioria das vezes, Montenegro liderou o grupo que fez 25 contratações para 2020. A ideia era montar um time competitivo com o pouco dinheiro à disposição, mas alguns dos acordos afetaram os cofres já vazios do clube, e a maioria dos reforços teve retorno técnico próximo de zero.

As 25 contratações do Botafogo na temporada 2020:

  • Zagueiros: Ruan Renato (já deixou o clube) e Rafael Forster
  • Laterais-direitos: Barrandeguy, Kevin e Gustavo Cascardo
  • Laterais-esquerdos: Guilherme Santos, Danilo Barcelos (já deixou o clube) e Victor Luis
  • Volantes: Thiaguinho (já deixou o clube), Luiz Otávio, Rentería e José Welison
  • Meias: Bruno Nazário, Honda (já deixou o clube), Gabriel Cortez (já deixou o clube), Éber Bessa e Cesinha
  • Atacantes: Pedro Raul, Matheus Babi, Kalou, Davi Araújo, Lecaros, Warley, Kelvin e Angulo

As trapalhadas na administração do futebol do Botafogo em 2020 causaram uma enxurrada de críticas a Montenegro. Nas redes sociais, botafoguenses cobram há meses posicionamento do ex-presidente sobre a atuação do comitê de futebol. 

Torcedores criticam Montenegro nas redes sociais - Reprodução/Twitter
Torcedores criticam Montenegro nas redes sociais – Reprodução/Twitter

Em algumas ocasiões, o dirigente chegou a responder a mensagens enviadas por torcedores ao seu WhatsApp. Já tirou dúvidas sobre contratações e rebateu críticas ao afirmar que “pelo menos tentou fazer algo pelo clube”.

OS ÁUDIOS

Áudio vazado virou rotina na última passagem de Montenegro como dirigente do Botafogo. O primeiro episódio ocorreu em 9 de outubro de 2019, antes mesmo da criação do comitê. Naquele dia, comandado pelo então auxiliar técnico Bruno Lazaroni, o time venceu o Goiás, pelo Brasileirão. Logo depois do jogo, em mensagem enviada a um grupo de WhatsApp, o ex-presidente desabafou e avisou que sua vontade era trocar o treinador e todos os jogadores para 2020, até mesmo o goleiro Gatito Fernández. Na ocasião, fez duras críticas ao atacante Rodrigo Pimpão.

“O ideal seria começar do zero. Do técnico ao ponta-esquerda”, dizia no áudio.

Rodrigo Pimpão foi chamado de "jogador fraquíssimo" por Montenegro quando defendia o Botafogo - André Durão/ge
Rodrigo Pimpão foi chamado de “jogador fraquíssimo” por Montenegro quando defendia o Botafogo – André Durão/ge

Naquele momento, o Botafogo já estava acertado com Alberto Valentim para assumir a equipe, após a demissão de Eduardo Barroca. No mesmo áudio, Montenegro afirmou que a contratação do treinador visava apenas ao restante da temporada 2019 e, com a concretização da S/A, não havia o desejo pela continuidade do trabalho. O ideal seria pagar a multa e dispensá-lo. Valentim foi demitido em fevereiro de 2020, mas o projeto clube-empresa ainda não saiu do papel.

Outra polêmica aconteceu no mês seguinte, em março, quando um áudio atribuído ao ex-presidente comemorava a contratação de Yaya Touré para o Campeonato Brasileiro. Montenegro chegou a viajar à Europa para negociar a vinda do marfinense, que não se concretizou. 

Em setembro passado, em nova mensagem de voz após derrota no Brasileirão, Montenegro afirmou que o Botafogo é o “maior freguês da história do Vasco”. Ele ainda comentou as contratações feitas para a temporada.

“Temos alguns jogadores fracos? Lógico que temos. Você acerta em oito, nove contratações, mas acaba errando algumas”. 

A atividade do dirigente nas redes sociais e as entrevistas à imprensa não agradavam a outros membros do comitê. Os áudios geraram estresse interno, e Montenegro precisou contornar a situação com direção, comissão técnica e elenco. Chegou a dizer que não comentaria mais negociações e outras resoluções do comitê, mas não conseguiu por muito tempo.

A ENTREVISTA FINAL

Montenegro concedeu coletiva virtual com cerca de quatro horas de duração em outubro de 2020 - Reprodução
Montenegro concedeu coletiva virtual com cerca de quatro horas de duração em outubro de 2020 – Reprodução

A última aparição de Montenegro se deu em 28 de outubro passado. Já no convite, o dirigente dizia que se tratava de sua derradeira entrevista pelo Botafogo, promessa cumprida até agora. Em cerca de quatro horas de conversa virtual, o ex-presidente afirmou que o clube está falido, explicou algumas contratações e abordou o futuro de um Botafogo praticamente ingovernável.

Entre os assuntos, a demissão de Bruno Lazaroni horas antes da coletiva e apenas 27 dias após a efetivação do técnico. Mais uma polêmica. Montenegro fez críticas ao trabalho do profissional e deixou claro que a escalação na derrota para o Cuiabá por 1 a 0, pela Copa do Brasil, pesou para a saída do comandante. 

“A falta de ânimo, a mesma escalação, isso me incomoda. Ontem não teve nada de diferente, foi patético”.

O episódio pegou mal com Lazaroni, que havia aceitado voltar ao cargo de auxiliar técnico permanente, mas pediu demissão do clube no dia seguinte.

Escalação de Cícero contra o Cuiabá não agradou a Montenegro - Vitor Silva/Botafogo
Escalação de Cícero contra o Cuiabá não agradou a Montenegro – Vitor Silva/Botafogo

Pontos citados por Montenegro na entrevista

  • Desgaste e vontade de sair: “A ideia do comitê preservou algumas pessoas, quem mais aparecemos somos eu e Rotenberg. Coloco a cara e acabo pagando por isso, mas não vou mudar com 66 anos. Está na hora de eu sair, está me fazendo mal”;
  • Situação financeira: “Corre risco de levar W.O. Não tem receita, só conseguimos pagar salários. A vida não é só isso. Temos viagens, concentração, treino, água, luz, gás, bola. Outro dia comprei 18 bolas de futebol para eles treinarem. Não tinha bola!;
  • S/A: “No projeto 1, os investidores majoritários não aceitavam não ser majoritários. O projeto 1 esfriou, e o projeto 2 está a todo vapor… Precisamos de dinheiro novo para pagar as dívidas, fazer uma oferta aos credores e começar uma vida nova. Se nada acontecer, teremos que pensar em recuperação judicial, sim”;
  • Críticas de Felipe Neto: “Eu perdoo o Felipe Neto, ele me atingiu violentamente pelas costas. Mas foi um desatino de um torcedor. Sem razão. Ele mentiu, falou algo sem pé nem cabeça”;
  • Novo CT e Moreira Salles: “O terreno foi doado, mas passaria a ser deles nessa nova proposta, haveria uma devolução. Ideia deles é fazer uma fundação, colocar dinheiro, construir um CT de primeiro mundo e entregar para o Botafogo usar sem gastar um centavo de manutenção por cinco anos”. 

No jogo seguinte à entrevista – empate por 2 a 2 com o Ceará, no Nilton Santos -, Montenegro quis comandar a equipe à beira do campo. Porém, sem diploma para a função, ele não obteve permissão, e a missão de orientar os jogadores ficou com o preparador de goleiros Flávio Tênius.

Tulio Lustosa chegou ao Botafogo em outubro e não conseguiu contratar o treinador desejado após a saída de Lazaroni - Vitor Silva/Botafogo
Tulio Lustosa chegou ao Botafogo em outubro e não conseguiu contratar o treinador desejado após a saída de Lazaroni – Vitor Silva/Botafogo

Nas semanas seguintes, mesmo com a contratação do gerente Tulio Lustosa para substituir o comitê de futebol, Montenegro continuou a influenciar as decisões do clube, principalmente na busca pelo novo técnico. Inicialmente, o perfil era de um comandante brasileiro, que estivesse a par da situação do Botafogo dentro e fora de campo, mas o cardeal mudou os rumos das negociações ao procurar treinadores no mercado latino-americano. 

Chegou a ter acordo com o venezuelano César Farías, mas fechou com o argentino Ramón Díaz, que foi demitido antes mesmo de assumir. Como Ramón tinha um problema de saúde, o filho Emiliano Díaz ficou a cargo dos primeiros treinamentos e saiu após três derrotas em três jogos.

Tulio, que teria autonomia nas decisões do futebol, tentou remar contra a corrente num primeiro momento, mas a influência de Montenegro falou mais alto em General Severiano.

AMIGOS DE INFÂNCIA

Montenegro e Durcesio são amigos desde a escola - Vitor Silva/Botafogo
Montenegro e Durcesio são amigos desde a escola – Vitor Silva/Botafogo

Desgastado com as críticas, Montenegro se despediu da administração do Botafogo no fim de outubro de 2020, mas teve tempo de vencer mais uma eleição em General Severiano. O cardeal apoiou o amigo de infância Durcesio Mello, eleito presidente em novembro passado.

Os dois se conheceram no colégio São Vicente de Paulo, no bairro do Cosme Velho, a 200 metros da subida para o Cristo Redentor. Foi através de Montenegro que Durcesio entrou na política do clube, em 2014. Desde então, passou a ficar mais presente nos bastidores. O ex-presidente deixou claro que não participará da administração, mas sua influência no Botafogo ainda é grande. Ao registrar o voto em Durcesio, no dia 24 de novembro, ele externou o medo de estar “jogando um amigo de infância no inferno”.

Ex-presidente fez última aparição pública na eleição - Vitor Silva/Botafogo
Ex-presidente fez última aparição pública na eleição – Vitor Silva/Botafogo

Durante a campanha do ano passado, Durcesio deu nota 8 para o trabalho do comitê. Já empossado, o mandatário garantiu ao ge que a única relação com Montenegro atualmente é pessoal. O atual presidente defende o amigo das críticas e diz que ele está mal com a rejeição da torcida.

– Eu falo com ele diariamente, mas como amigo. Ele ficou muito decepcionado, muito triste com essa situação com o nome dele por conta desse time, que ele teoricamente montou. Ele, o (Manoel) Renha, o (Ricardo) Rotenberg, o Nelson (Mufarrej), mas, como ele é o nome mais popular entre os botafoguenses, ele apanha mais. Desde que eu ganhei a eleição, em nenhum dia falei com ele sobre Botafogo. 

“Esse modelo que eu estou implantando, em tese, não tem mais espaço para isso, não só para o Montenegro, mas para outros também”.

– Para mim, é o maior botafoguense da história, mas eu também sou suspeito porque sou muito amigo dele. É meu irmão, conheço há 60 anos, desde os 5 anos de idade. Enfim, acho que ele está sendo injustiçado por grande parte da torcida. 

O objetivo do novo presidente é que Montenegro não tenha espaço nem mesmo para salvar o clube com os empréstimos financeiros de outrora. 

– Você tem que parar de depender de mecenas, como muitos clubes dependem. Eu não descarto a ajuda dele, mas não estou falando nada até porque ele quer um descanso, está cansado. Se desgastou muito esse ano que passou, trabalhando e tentando ajudar o Botafogo. 

PARTICIPAÇÃO NA S/A

Montenegro é um entusiasta da transformação do Botafogo em empresa - Vitor Silva/Botafogo
Montenegro é um entusiasta da transformação do Botafogo em empresa – Vitor Silva/Botafogo

Montenegro ainda é parte importante do projeto clube-empresa, e muitas das reuniões sobre o tema, inclusive, acontecem em sua casa, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A S/A foi o assunto que norteou a última entrevista coletiva do dirigente.

O ex-presidente sempre foi um incentivador da transformação do clube em empresa. Após o primeiro projeto, liderado por Laercio Paiva, não ter sucesso, Montenegro convocou os jornalistas em outubro para explicar o andamento da S/A, agora no estágio 2 e sob nova liderança, de Gustavo Magalhães. Um dos investidores, o cartola vê o projeto como única salvação para que o Botafogo não se torne ingovernável.

Em um dos áudios vazados, em maio de 2020, ele falou com otimismo sobre o processo. As previsões equivocadas em relação à concretização do projeto também foram motivo de críticas da torcida, que passou a ver a S/A como um sonho distante.

“Está chegando, está vindo, acho que a gente vai conseguir isso em mais uns 40 dias. Estamos em uma fase de burocrocia, a parte do dinheiro está andando”, afirmou em maio.

Com a desaceleração na conclusão do clube-empresa, Montenegro e outros dirigentes adotaram o silêncio sobre o assunto. Durcesio já disse preferir não contar com o projeto enquanto se reúne com o amigo e outros colaboradores em busca da concretização do que poderia ser o início de uma nova era para o Botafogo.

Fora do clube, a vida de Montenegro passa por outra transformação. Após vender o Ibope Mídia à empresa inglesa Kantar, em 2015, a família do ex-presidente manteve o Ibope Inteligência, que encerra as atividades ao fim deste mês de janeiro. Longe da empresa da vida toda, ficará o dirigente fora também da política do clube do coração?

Fonte: ge

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