Alessandro Leite não vê S/A como única solução para o Botafogo: “Temos de ter planos do A ao Z”

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No dia 24 de novembro, os sócios do Botafogo escolherão o próximo presidente do clube. Para apresentar os candidatos e elucidar as propostas, o ge inicia uma série de entrevistas com os presidenciáveis. O primeiro da lista é Alessandro Leite. 

A partir desta quarta-feira, será publicada uma entrevista por dia, sempre no início da manhã. As conversas também serão publicadas em áudio. É só dar o play abaixo para ouvir o podcast com Alessandro Leite. Na quinta, será a vez de Durcésio Mello e, na sexta, Walmer Machado, por ordem alfabética.

Atual vice-presidente executivo do clube, Alessandro tem como candidato a vice o primeiro secretário do Conselho Fiscal, Jorge Magdaleno. A chapa ouro, denominada “Todos pelo Botafogo”, representava a situação até o início de outubro, quando o grupo político “Mais Botafogo” retirou o apoio à administração de Nelson Mufarrej.

Tratada como prioridade, a busca por dinheiro novo será o principal desafio do próximo presidente do Botafogo. Alessandro defende que é preciso trabalhar com planos diversos e não se apoiar apenas na S/A como salvação, apesar de ainda enxergar o clube-empresa como principal alternativa. 

Entre as propostas do candidato está a captação por meio de marketing, como direito de nomear propriedades do clube (naming rights, no termo em inglês normalmente utilizado no mercado), e a busca de verbas na iniciativa privada via projetos incentivados. O advogado coloca a reestruturação do lado comercial e de finanças como primeira prioridade de uma possível gestão. 

Sobre o futebol, Alessandro promete organização para montar times competitivos mesmo com orçamentos cheios de restrições. O candidato afirmou que já tem um nome para a vice-presidência de futebol e espera o “sim” ao convite. E não confirmou se vai manter os atuais profissionais se vencer a disputa. 

Leia a entrevista 

Projetos financeiros

– Com um passivo na casa de R$ 1 bilhão, o Botafogo tem hoje uma das maiores dívidas do futebol brasileiro. Em entrevista recente, Carlos Augusto Montenegro revelou que o clube não tem recursos para quitar contas básicas, como água, luz e até compra de bolas. Como resolver essa situação no curto prazo para manter o funcionamento do clube?

Não é segredo que o Botafogo atravessa uma situação financeira muito delicada não é de hoje. Mas esse discurso de que o Botafogo vai encerrar suas atividades também vem de longa data. Prestes a completar 50 anos de idade, eu venho escutando esse discurso desde que me entendo por gente. Já tivemos situações acho que até piores com relação ao nosso elenco e sobrevivemos. Botafogo obviamente precisa de ações imediatas, de austeridade financeira maior do que vem sendo, principalmente no sentido de captação de novos recursos. 

Temos nos nossos planos, inclusive já em negociações, algo no sentido de naming rightstanto para o estádio quanto para as outras sedes, e alguns projetos de captação de recursos novos em apoio ao projeto do clube-empresa, que a gente continua trabalhando em cima. Seria o ideal para o Botafogo como gestão o surgimento do projeto clube-empresa, que nós iniciamos ainda dentro das gestões anteriores do próprio “Mais Botafogo”. 

– A S/A tomou novo rumo após o primeiro projeto estagnar. O plano atual só terá continuidade na nova gestão. O senhor acredita que a A S/A é a única solução? Como pretende dar seguimento ao projeto?

Eu não vejo como a única solução, acho que um clube da grandeza do Botafogo não pode ter apenas o plano A e o plano B, temos que ter do A ao Z e, se puder, incluir mais algumas opções. A minha visão talvez seja que os principais planos passem pela transformação do clube em empresa para separar o futebol das demais atividades. Essa seria a melhor e mais rápida saída. São dois projetos em tese parecidos, mas que vêm sendo tocados. O primeiro ficou pausado, houve uma pausa nas tratativas, sofremos com a pandemia. O segundo está sendo tocado ainda, os dois caminham em conjunto. 

Os outros projetos para captação de recursos para que o Botafogo continue sendo gerido de uma forma mais técnica também estão em andamento. Temos outras opções para captação, tanto com naming rights quanto com projetos incentivados para diversas áreas do clube, o que acaba desonerando. E nos sobra alguma coisa para investir no cenário do esporte em geral. Nós não podemos ficar limitados aos planos A e B, precisamos e temos algumas outras opções, estamos trabalhando em cima disso independentemente de resultados de eleição. Acho que cabe a todos nós como botafoguenses apaixonados trazer soluções para o Botafogo. 

– No lado financeiro, entre as suas metas, como já citou, está a captação de marketing por meio de naming rights. Já há algo concreto nesse sentido ou apenas a ideia? Já conversam com algum investidor?

Com a mudança de algumas regras que tivemos ao longo do último ano foi aberta uma possibilidade maior de negociação de naming rights. Temos até exemplos de clubes brasileiros que recentemente conseguiram obter recursos. Ainda não temos nada fechado, mas estamos em negociações para avançar nesse tópico. 

E não somente com relação ao Estádio Nilton Santos, mas também outras sedes que nós possuímos e entendemos que podem se enquadrar nessa questão. É algo que estamos buscando para o Botafogo e não apenas a título de promessa de campanha. 

Centro de treinamentos

– O Botafogo está com dificuldades para terminar o novo Centro de Treinamentos, em Vargem Grande. A previsão inicial de mudança era o ano passado, mas isso ainda não aconteceu e há pessimismo sobre a finalização da obra no próximo ano. O que fazer para acelerar o processo? 

É bom que se deixe claro que nem todos os problemas ocorridos na construção foram decorrentes de falta de recursos. Tivemos muitos problemas desde a regularização daqueles terrenos para efetivar a compra, bem como liberação das autoridades para que algumas obras fossem feitas, existe uma área de preservação muito grande, uma rua que existe na Prefeitura e, quando olhamos, não tem rua ali, houve um deslizamento há muitos anos. Para que tudo fosse legalizado, houve uma demanda de tempo muito maior do que o esperado. 

Problema financeiro existe também para que a conclusão das obras possa ocorrer. Quando fizemos essa projeção lá atrás, o cenário era completamente diferente e entendíamos que era viável, mas agora houve essa mudança e está extremamente complicado de dar seguimento às obras. 

A parte inicial foi feita e houve também na ocasião umas duas ou três alterações de projeto. Acabou que as obras ficaram estagnadas com relação a essas alterações de projeto, até porque o Botafogo não entende que deveria simplesmente pegar aquilo ali e fazer um CT de qualquer forma, mas fazer um CT que realmente atenda às expectativas do clube, que ele possa atender principalmente à formação de atletas com qualidade. Acho que o desafio para a próxima gestão seria uma renegociação. Como todos sabem houve um empréstimo vindo dos irmãos Moreira Salles para a aquisição do terreno e realização de parte das obras, a próxima gestão precisa viabilizar a conclusão das obras. 

Dependendo desses valores e da forma como serão aportados, acho que em um ano poderíamos ter a condição plena de levar para lá o nosso CT para atender a demanda do Botafogo e, a partir daí, equalizar o pagamento dessa renegociação. 

Gestão

– Qual vai ser a primeira coisa que vai fazer se for eleito para presidente do Botafogo?

O primeiro ponto seria com relação a tentar trazer recursos novos imediatos. Isso passa por uma melhor estruturação do departamento comercial, fortalecimento da nossa marca, trazer novos investidores e novos patrocinadores, obtenção de naming rights, uma série de ações voltadas para trazer recursos novos e que a gente possa aplicar de uma forma muito rigorosa, com muita responsabilidade. Se não for por esse caminho, o restante da gestão fica muito difícil ou quase que impossível de ser tocada, pois nossa visão hoje está na reestruturação e nos novos recursos para o clube. 

– A atual gestão passou por algumas crises. No âmbito político, entre outras coisas, resultou na criação do Comitê de Futebol. Até bem pouco tempo o “Mais Botafogo”, o seu grupo, era o principal da base de Nelson Mufarrej. Esse desgaste pode ser transferido para a sua candidatura?

Não creio que tenha sido por conta da candidatura. Esse desgaste começou a ocorrer, na minha visão, na saída do vice-presidente de futebol, o Gustavo Noronha. Se intensificou na saída do vice-presidente executivo, Luiz Fernando. Obviamente, isso tudo coincidiu com a formação desse comitê. Mas, não creio que tenha qualquer relação com a candidatura. Houve uma ruptura com a atual gestão muito por conta da condução de algumas decisões. 

Optamos por não abandonar o Botafogo, continuar ajudando. Nesse ponto, o presidente Nelson Mufarrej entendeu, soube separar as situações. O relacionamento continua existindo, sem qualquer rusga ou mágoa. Foi apenas uma decisão da prática de apoio incondicional da gestão. A minha candidatura veio posterior à chegada do comitê. E não temos qualquer problema direto com as pessoas que estão lá. 

Futebol

– Como será a organização do futebol na sua gestão? Quem será o vice? Haverá diretor executivo responsável? Pode antecipar nomes?

No tocante ao futebol, nós fizemos um convite para um nome que entendemos que possa nos ajudar na vice-presidência de futebol pelo menos até que a S/A saia efetivamente do papel. Estamos aguardando e prefiro nesse momento nem divulgar, porque não gostaria de pressioná-lo. Ele já está sofrendo pressão pessoal em doses homeopáticas, três vezes ao dia Jorge e eu vamos revezando e ligando, mandando mensagem. 

A partir do momento em que definirmos a vice-presidência iremos fazer o restante da pasta, com a participação dele. Entendemos também que não adianta nomear o vice-presidente e já entregar a ele o pacote completo, o melhor é deixar que ele participe conosco das escolhas. 

– O Botafogo não consegue um título de expressão nacional desde o Campeonato Brasileiro de 1995. Sem dinheiro, como montar um time competitivo para voltar a se destacar no cenário brasileiro?

Essa questão de montar um time competitivo eu considero algo que não possamos mensurar, não existe fórmula mágica. Em 95, quando ganhamos o título, poucos acreditavam que aquele time pudesse ser campeão brasileiro. Tínhamos problemas de atrasos de salários, mas o time teve entrega, deu liga, o elenco foi formado não com o melhor que existia no Brasil e não para ser campeão brasileiro. 

Foi montado um time para disputar o Campeonato Brasileiro e ultrapassou as expectativas, deu certo e atingiu muito mais que o objetivo que foi traçado. Mesmo com advento de S/A, mesmo que o clube consiga amanhã R$ 200, R$ 300, R$ 500 milhões, obviamente você consegue montar um time nominalmente competitivo e que possa trazer títulos de expressão. Embora eu não goste desse termo, acho que todo título é de expressão, não menosprezo, por exemplo, o Campeonato Carioca. Mas devemos buscar também títulos com mais visibilidade, que seriam Brasileiro, Copa do Brasil, Sul-Americana, Libertadores. 

Acho que, mesmo com pouco dinheiro, se tivermos inteligência e coerência na hora de fazer as contratações e com os pés no chão a fim de mantermos uma gestão responsável, com atletas e funcionários do futebol com a mínima condição de mostrar seu trabalho, a nossa chance de título aumenta. Acho que não adianta trazer o Cristiano Ronaldo e o Messi e não pagá-los. 

Qualquer clube que tenha o futebol inserido nele, os títulos fazem parte do mecanismo, então a roda do título está girando e faz aumentar torcida, captação, interesse do investidor, o próprio torcedor fica mais empolgado e pode aderir aos planos de sócios, enfim, abre-se um leque grande quando se tem um time mais competitivo e que dê alegrias. Mas tudo isso tem que ser feito com muita responsabilidade com o orçamento, e entendo que isso passe muito pelo setor de inteligência. 

– O futebol feminino é hoje uma obrigatoriedade da Conmebol e da CBF para que os times possam participar das competições organizadas por essas entidades. O Botafogo, pela situação financeira delicada, investiu pouco na modalidade desde que ela foi retomada nos últimos dois anos. Como tornar o futebol feminino do Botafogo mais competitivo e atrativo?

Nós estamos em cima desse projeto. Ele foi implantado há pouco tempo com a obrigatoriedade. Temos atletas excelentes, novas, promissoras. Pretendemos contar com elas para a próxima temporada. Boa parte do elenco e da comissão técnica nós pretendemos manter. 

Estamos fortalecendo, também, o projeto da Botafogo TV, porque um passa pelo outro. Nessa era digital, temos um grande trunfo nas mãos, que é a Botafogo TV. Uma melhor condição para a TV, com mais profissionais, porque hoje temos uma equipe fora de série, mas reduzida. Assim, poderemos melhorar o futebol feminino ao dar mais visibilidade. O Brasil ainda não tem essa cultura, e ele acaba esquecido, não tem a divulgação que deveria ter. A Botafogo TV pode ser um órgão excelente do nosso futebol feminino, porque vai trazer patrocinadores e investidores novos. 

– Hoje, o time principal do Botafogo é recheado de jovens da base. Quais os planos para as categorias inferiores e como melhorar a arrecadação com venda de jogadores, que é uma das principais fontes de renda do clube?

A base é responsável por boa parte da arrecadação do clube. Precisamos, cada vez mais, fortalecer a estrutura. Seja com projetos incentivados, com investimentos financeiros diretamente na base… Temos que colocar isso como prioridade, nossa gestão será voltada em fortalecimento da base e captação de novos atletas. 

Com os profissionais que já temos e trazendo outros também qualificados, teremos resultados a médio e curto prazo. Já temos grandes promessas dentro da nossa base. O trabalho a ser feito é para um período mais a médio prazo. Não vamos deixar de fazer um investimento mais pesado na base. 

Estádio e sedes do Botafogo

– No ano passado, antes da Covid-19, o Botafogo teve média de 13 mil pagantes e chegou a jogar para um público de 1 mil pessoas. Esses números preocupam? Com quais ações concretas o senhor pretende levar o torcedor de volta ao estádio? O que planeja para tornar o programa de sócio-torcedor mais atrativo?

A torcida é essencial para o Botafogo. O Botafogo precisa de S/A, de patrocinador… Mas, acima de tudo isso, precisa de sua torcida e de união. Quanto mais a torcida do Botafogo puder se mostrar, maior a credibilidade e a chance do Botafogo conseguir bons negócios. Será mais atrativo. A torcida precisa ser mais inserida na realidade do clube. Talvez com a criação de algum comitê ou setor que o clube possa fazer uma comunicação melhor, para que ela tenha ciência não só dos jogos, mas dos problemas do dia a dia do clube, para que possa participar. 

Vejo uma necessidade de reformulação do projeto do sócio-torcedor. Não acho um projeto ruim, ele tem atrativos, mas algo precisa ser feito para incrementar e tornar mais atrativo para o torcedor. Ele precisa se sentir mais influente dentro do projeto, mais agraciado pelo clube. 

– Sócios reclamam do sucateamento da sede de General Severiano. Além dela, o Botafogo tem outras, como Marechal Hermes e Mourisco, por exemplo, como pretende utilizar todos os imóveis que o clube tem?

Todos os planos passam pela S/A, pela definição sobre o clube-empresa. A partir daí vamos poder olhar com mais carinho para as nossas sedes e fazer com que elas criem as próprias receitas para fazer as devidas melhorias. Isso não pôde acontecer nos últimos anos pelo cobertor curto. Temos que escolher entre pagar salários e tributos ou fazer uma obra na sede. Não tem como fazer uma escolha diferente. 

É claro que há obras emergenciais e obras que são por pura estética, vamos saber separar. Nós já temos alguns projetos para captação de recursos próprios para cada uma das sedes, para trazer melhorias. General Severiano, com a saída do futebol, o sócio vai participar de forma muito mais efetiva. Como o que fazer com o campo, por exemplo, que pode virar muitas coisas de mais serventia para os sócios. Vamos contar com a iniciativa privada para fazer essas melhorias. 

Sobre o Mourisco Mar, o Botafogo vem sofrendo diversas críticas sobre o fechamento. Fizeram diversas obras lá atrás que não resolveram o problema. Agora, estamos fazendo um diagnóstico ainda mais minucioso para saber se essas obras resultaram em problemas estruturais que hoje ocorrem lá. O problema é muito maior, não é um mero problema de vazamento ou infiltração. A obra ultrapassa a casa dos R$ 10 milhões. 

A sede de remo eu vejo com um potencial grande para o clube, porque fica em um local privilegiado. Precisa de um pouco de investimento para que o sócio aproveite, mas também que seja um atrativo de investimentos. Assim como a sede de Jacarepaguá, que pode virar uma opção de sede social do Botafogo, para que os torcedores da região, que são muitos, tenham a opção passar o dia por lá ao invés de ir até a Zona Sul. 

Fonte: ge

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