1907: BOTAFOGO: CAMPEÃO CARIOCA DE FUTEBOL

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CAMPEÃO CARIOCA DE FUTEBOL

OS CAMPEÕES DE 1907 – A partir da esquerda, em pé: Alvaro, Raul e Octavio; no centro: Norman, Antonio Luiz e Lulú Rocha; sentados: Ataliba, Flávio Ramos, Canto, Gilbert e  Emanuel

No limiar do ano de 1907, a Liga Metropolitana de Futebol preparava-se ativamente para organizar o seu segundo campeonato, tendo mudado a sua denominação para Liga Metropolitana de Sports Athleticos e por agir de forma inábil, perdeu, de imediato, dois de seus filiados, o Bangu e o Rio-Cricket.

Em 02 de junho nossa equipe dos primeiros quadros estreou no Campeonato Carioca enfrentando o Fluminense, no campo do adversário, onde atuou em todas as partidas, e numa tarde em que nada deu certo para os alvinegros, houve a derrota por 3×0, atuando: Alvaro, Raul e Octavio; Viveiros, Norman e Lulú; Millar, Flávio, Ataliba, Gilbert e Emanuel.

Na segunda partida, em 16 de junho, o Botafogo teve uma grande atuação, vencendo a forte equipe do Payssandú por 5×3, gols assinalados por Emanuel Sodré (3), Flávio (1) e Raul, cobrando penalty com um chute violento e a “Gazeta de Notícias” assim comentou: “Do Botafogo, jogaram bem: A.L.Werneck, center-half de respeito, Sodré e Hime”. Atuamos com Coggin, Raul e Octavio; Norman, Antonio Luiz e Lulú; Ataliba, Flávio, Canto, Gilbert e Emanuel.

Em 14 de julho o Alvinegro entrou em campo pela terceira vez, vencendo o Internacional (nova denominação do Athletic) por 2×0, com gols de Ataliba e Raul, formando com: Alvaro, Raul e Octavio; Norman, Antonio Luiz e Lulú; C.Monteiro de Barros, Flávio, Ataliba, Gilbert e Emanuel.

O Botafogo voltou a campo somente em 15 de setembro para vencer o novamente o Payssandú, em jogo sensacional, por 3×1, atuando com: Alvaro, Raul e Octavio; Norman, Antonio Luiz e Lulú; Ataliba, Flávio, Canto, Gilbert e Emanuel. O placar foi aberto pelo adversário no primeiro tempo e nosso grande meia, Flávio Ramos, assinalou dois bonitos gols. O terceiro gol foi marcado por Canto, recentemente transferido do Palmeiras, equipe carioca. Jogaram pela equipe alvinegra: Alvaro, Raul e Octavio; Norman, Antonio Luiz e Lulú; Ataliba, Flávio, Canto, Gilbert e Emanuel.

A “Gazeta de Noticias” comentou sobre Antonio Luiz: “É justo que mencionemos também aqui, o jogo elegante, delicado, preciso e firme do inigualável center-half Antonio Luiz Werneck. É admirável o seu jogo!”

ASPECTO DO JOGO BOTAFOGO 3X1 PAYSSANDÚ, REALIZADO NO CAMPO DO FLUMINENSE, EM 15 DE SETEMBRO

Na tarde do domingo, 22 de setembro, o Botafogo venceu o forte time do Fluminense por 4×2, em jogo muito disputado, tendo o primeiro tempo terminado empatado em 1×1, gols de Oswaldo Gomes para o adversário e Flávio para as nossas cores. Veio a segunda etapa e Oswaldo desempatou para os tricolores, mas o Botafogo reagiu extraordinariamente, marcando três gols no Fluminense, por Flávio (2) e Gilbert (1), atuando com a seguinte equipe: Alvaro, Raul e Octavio; Norman, Ataliba e Lulú; Rolando, Flávio, Canto, Gilbert e Emanuel.

A conquista pela visão do cronista “Água e Ar”, em “O Sport”, de 23/01/1928, relembrando aquele grande triunfo botafoguense:

“Quanta emoção no primeiro tempo. O Fluminense começou vencendo, pois que duas bolas foram balançar a rêde de Alvaro Werneck. Parte da assistência delirou. O Fluminense continuava leader. Mas, ainda na primeira fase, o Botafogo obteve o seu primeiro tento. Foi formidável a reação. O campo era um delírio, ouvindo-se os Hinos da atualidade das duas grandes sociedades esportivas.

Depois, a segunda fase. Outro goal para o Botafogo: o jogo estava empatado por 2×2.

Eu sentia um calafrio em cada ataque dos alvinegros. Súbito, vi o Flávio Ramos com a bola; não mais olhei: ouvi, apenas, a ovação estrondosa. O grêmio alvi-negro alcançara vantágem.

O Fluminense reagiu em vão, pois que nada poude obter. Nos últimos minutos, Flávio, que então me parecia um demônio, vazou pela quarta vez o retângulo de Waterman, o terrível e ágil arqueiro do quadro fluminense.  O Botafogo venceu por 4×2”.

Botafogo e Fluminense ocupavam a liderança do Campeonato.

A campanha do Botafogo foi magnífica, com 6 jogos, 5 vitórias e 1 derrota. Gols pró, 14; contra 9. Saldo: 5.

Flávio Ramos foi o artilheiro com 6 gols assinalados.

FLÁVIO RAMOS, O ARTILHEIRO

Nesse ponto, reproduzo a descrição dos fatos que geraram uma grande polêmica, feita pelo grande Dr.Alceu Mendes de Oliveira Castro, em sua magnífica obra, “O Futebol no Botafogo (1904 – 1950)”:

“No domingo seguinte, 29 de setembro, deveríamos enfrentar o fraco team do Internacional, último colocado e o Botafogo acalentava a doce esperança de vencê-lo por elevado score, desfazendo assim a pequena diferença em goals que o Fluminense possuía a mais.

Pois bem, por motivos inconfessáveis, o Internacional, que foi a campo disputar o encontro dos segundos quadros, com o intuito de evitar a nossa vitória, entregou acintosamente os pontos os pontos do jogo de primeiros teams, recusando-se a disputá-lo!

Sentindo-se esbulhado, o Botafogo não se conformou e pleiteou, na Liga, o desempate em campo, com o que não concordou o Fluminense, que exigiu o cumprimento do regulamento.  As discussões foram acaloradas e o resultado o mais inesperado possível: dissolveu-se a primeira Metropolitana, em assembleia de 28 de outubro, sem resolver a questão e sem proclamar o campeão, extinguindo-se, logo após, o desleal Internacional.”

Em 1989, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ) declarou, equivocadamente, o Fluminense como Campeão de 1907.

Em 1991, em um excelente trabalho do saudoso Grande Benemérito Maury Rodrigues de Macedo e seu filho, Benemérito Alberto Macedo, conceituados advogados, após exaustivas pesquisas, foi contestada a decisão da FFERJ, tendo sido dado provimento, por unanimidade de 11×0 ao recurso do Botafogo de Futebol e Regatas, no julgamento realizado pelos auditores da FFERJ, restando provada a inexistência de regulamento, mas sim, a existência de um Estatuto, onde não constava qualquer menção a saldo de gols.

Vale reproduzir o depoimento do Benemérito Alberto Macedo:

“Meu pai, conversando comigo, teve a ideia de ir a Federação. Ele havia sido Auditor do Departamento Autônomo (julgava as infrações dos torneios amadores), e lá havia conhecido Eduardo Vianna.

Chegando lá, meu pai pediu ao Eduardo Vianna para examinar o processo pelo qual o Fluminense fora proclamado Campeão de 1907.

Eduardo Vianna surpreendeu-se, mas pediu que viesse a nós o processo.

Na verdade o processo era apenas o requerimento do Fluminense com alguns despachos para os departamentos, e a decisão proclamando o campeão o clube tricolor, sem que houvesse contraditório.

A decisão já havia ocorrido há alguns dias e tinha sido publicada em Boletim da FFERJ.

Aparentemente não se poderia fazer mais nada, mas eu continuei lendo os documentos por diversas vezes, quando percebi que na publicação não constava o nome do nosso Botafogo.

Daí falei com meu pai e tomamos ciência pelo Botafogo naquele momento. E a partir daí nosso prazo de três dias começava a fluir.

Fui para a Biblioteca Nacional com um gravador e fiquei um dia inteiro lendo os jornais de 1907. E gravando cada matéria que tratava do assunto, pois, a reprodução de tais documentos, só nos seriam fornecidas em 48 horas.

Fui para casa, fiz a degravação e entreguei ao meu pai. E o recurso foi feito a quatro mãos, evidentemente mais ele que eu, embora eu também participasse.”

Dessa forma, o Botafogo de Futebol e Regatas foi declarado Campeão Carioca de 1907.

O Fluminense entrou com recurso em 1995, e em 1996, o Presidente da FFERJ, Eduardo Vianna, por ato administrativo, declarou ambas as equipes campeãs. Os clubes recorreram ao Superior Tribunal de Justiça da CBF, que ratificou a decisão do Presidente da FFERJ, encerrando a mais longa polêmica do futebol brasileiro.

(Fonte bibliográfica: Oliveira Castro, Alceu Mendes de – “O Futebol no Botafogo (1904-1950 – 1950) – Gráfica Milone Ltda)

Troféu que o Botafogo mandou confeccionar

Por: Luiz Felipe Carneiro de Miranda
Grande Benemérito, Historiador e Curador do Centro de Memória do Botafogo de Futebol e Regatas.

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