Campeão do mundo em 70 e influencer, Gérson avalia Pelé x Garrincha e Botafogo na Série

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Não é fácil conseguir uma entrevista com um dos mais geniais camisa 10 da história do futebol brasileiro e mundial, mas todas as vezes que encontramos com ele a aula está garantida.

Gérson de Oliveira Nunes não gosta de ser chamado de mestre, mas a verdade é que todo mundo o considera assim.

Mestre quando atuou por 20 anos no futebol e agora mestre como comunicador, aliás, radialista, como ele gosta de se definir.

Dessa vez ao lado do repórter Rafael Valente, estive frente a frente com o Canhotinhaa de Ouro, campeão da Copa do Mundo, pela terceira vez. A entrevista foi gravada no início de agosto deste ano, em Niterói.

A primeira vez foi um privilégio, pois eu estava começando na profissão e tinha 21 anos de idade. Foi em 1990 na TV Bandeirantes, no programa “Show do Esporte”. Eram outros tempos, pois aprendi a conviver com lendas vivas que nos abraçavam, beijavam e brincavam com a gente como meros mortais sempre que nos encontrávamos na redação.

Aquele era um timaço. Aliás, era a faculdade dos sonhos, algo que todo jornalista esportivo deveria ter acesso, pois, além de Gérson, circulavam pela redação e entre as nossas máquinas de escrever craques como Rivellino, Tostão, Mário Sérgio, Bobô. Todos comandados pelo inesquecível diretor, locutor e companheiro Luciano do Valle.

Confesso que os dez anos seguintes, esses já distantes do Canhota, me fizeram mal, pois mestres como ele fazem muita falta no dia a dia quando buscamos a evolução na nossa profissão.

Reencontrei o Papagaio, outro apelido carinhoso dado por amigos a ele, em 2001. Dessa vez foi ao lado da jornalista Adriana Saldanha quando gravávamos o programa “Social Clube”, um marco na história da ESPN Brasil.

A gravação com Gérson aconteceu em um dos seus 20 núcleos do projeto social que ele conduz em Niterói há 21 anos.

Foi uma entrevista reveladora e espetacular, na qual o Canhota, no alto de sua mais completa humildade, falou de tudo. De Copa, de craques, de ação social, de Brasil e sua velha roubalheira, daquele comercial do cigarro Vila Rica famoso pela “Lei de Gérson”, que o vinculou de forma cruel e absurda com o sujeito que gosta de levar vantagem em tudo.

Gérson também falou, de forma emocionada, da filha que perdeu num terrível acidente de carro.

Depois dessa aula em forma de entrevista, que ocorreu no complexo de Viradouro, em Niterói, nunca mais consegui fazer uma entrevista com Gérson. Soube há alguns anos, nos bastidores da ESPN, que um ex-diretor pretendia contratá-lo para que ele fizesse parte do “Linha de Passe”. Imagine como seria o programa, líder de audiência da casa, com Gérson na bancada?

Mas a verdade é que a contratação não veio e ficou ainda mais difícil ter acesso às entrevistas maravilhosas e humanas de um gênio da bola, que acabou se tornando um grande nome também na comunicação.

Gérson é tão sincero que, um ano e meio atrás quando trouxemos o goleiro Manga do Equador para morar no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, implorei para que ele aceitasse encontrar com o ex-companheiro de Botafogo e seleção brasileira.

À época Gérson pediu desculpas e disse que o seu coração já não aguentava suportar fortes emoções. Afinal o Canhota já é um senhor com 80 anos de idade, diferente dos 49 de quando o conheci ainda na TV Bandeirantes.

Depois de 20 anos do meu último encontro com Gérson, graças a ajuda fundamental do companheiro Cícero Mello, repórter dos canais ESPN e Fox Sports, conseguimos chegar novamente até o craque que tanto tem a nos ensinar.

A gravação ocorreu em Niterói, na casa do genro de Gérson, que também foi importante para que o encontro fosse possível.

Nossa pauta era ouvi-lo sobre a relação com outro Mestre, esse bem mais esquecido, Zizinho, craque do Flamengo dos anos 1940, ídolo da seleção brasileira, do Bangu e do São Paulo.

Mas Gérson, claro, foi além.

Falou da falta de memória do futebol e do povo brasileiro com relação a ídolos como Zagallo, Barbosa, Didi. Falou dos mestres que o tornaram um atleta tão espetacular como poucos. Avaliou Pelé x Garrincha.

“Eu não sei quem jogou mais. Foram dois monstros sagrados do futebol. Por exemplo, o Pelé pegava a bola e você sabia o que ele ia fazer, mas quando você chegava ele já tinha feito. Já o Mané você não sabia o que ele ai fazer”, simplificou Gérson.

O Canhotinha de Ouro também falou de passado e presente com a autoridade de quem sempre foi do ramo e jogou muito.

“Tinha que ter uma estátua do Zagallo na porta da CBF. Ninguém fez no mundo do futebol o que esse cara fez. Ninguém tem os títulos que esse cara tem, mas ele é tratado como qualquer um. Ele não é qualquer um”, disse.

Na entrevista, ele revela sua frustração com o atual elenco do Botafogo e seu entusiasmo com o técnico Renato Gaúcho no Flamengo, sujeito ao qual ele demonstrou extremo respeito.

“Com todo o respeito, esse time do Botafogo que tá jogando aí não passaria na porta se outros times do Botafogo estivessem treinando. Mas eu ainda acredito que o Botafogo saia desse emaranhado de coisas ruins e chegue de novo e nunca mais saia da primeira divisão”, disse.

“O Renato pegou o Flamengo montado. Ele não é bobo. Ele vai se segurar nesse time. Ele tem um time, ele tem um elenco. O Renato é esperto. Foi jogador até anteontem e ele continua sendo jogador porque ele treina com os caras. Ele discute lá [dentro do campo] o esquema, mas discute se ganhou, se não ganhou. Ele já fazia isso no Grêmio, e o currículo dele mostra isso”, completou.

Gérson também falou da falta de craques e da falta de paciência que sempre teve com maus dirigentes e com jogadores mascarados, revelando ser esse um dos motivos que o fizeram nunca desejar ser treinador.

Hoje, com o advento da internet, não é preciso ficar tanto tempo sem aprender com o Canhota de Ouro. Basta assistir às nossas reportagens ou então ouvi-lo na rádio Tupi e se divertir com o jeito irreverente e inteligente no canal dele no YouTube: Canhotinha70.

E olha que na entrevista ele se orgulha de ter 300 mil seguidores em suas redes sociais, mas, cá entre nós, deveria ter milhões e milhões de pessoas o acompanhando, pois, não tenha dúvida, Gérson é um alento, um sopro de esperança no tão açoitado jornalismo de hoje…

Fonte: ESPN

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