Campeões dos pobres: os times suburbanos que tiveram o ‘título carioca’ esquecido pelo tempo

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Perto do Estádio Nilton Santos, ostentando suas centenárias cores azul e branco na fachada, fica o clube que leva o nome do bairro, o Engenho de Dentro Atlético Clube. Por dentro, a sede do “Fantasma Azul” está pintada de vermelho e preto. A estrutura foi alugada para uma escola de samba de uma organizada do Flamengo, mas por falta de pagamento, a parceria não andou. Marcelo e Ricardo Araújo, filhos do presidente falecido em 2019, esperam o vírus ir embora para tentar reerguer o clube que completará 109 anos em 2021. Tudo seria mais fácil, e talvez a crise não fosse desse tamanho, dizem eles, se o Engenho de Dentro fosse reconhecido como um legítimo campeão carioca de 1925.

— Eles não homologam o nosso título. O Vasco é reconhecido por ter ganho o mesmo campeonato um ano antes. Há um campeão carioca em Engenho de Dentro que agoniza — diz Marcelo.

A demanda não é mero devaneio, segundo historiadores e pesquisadores ouvidos pelo GLOBO. Há, de fato, oito edições do estadual “esquecidas” na História, disputadas entre 1925 e 1932, época do amadorismo, entre clubes só da cidade do Rio de Janeiro. E talvez você nunca tenha escutado falar sobre eles justamente pela impossibilidade desses clubes clamarem por algo: à exceção do Engenho de Dentro, todos foram extintos ou estão inativos. O Modesto F.C, de Quintino (campeão em 1926 e 1927); o S.C. América, de Lins de Vasconcelos (1928 e 1929); o Sportivo Santa Cruz (1930), o Oriente A.C. (1931), ambos de Santa Cruz; e o S.C. Boa Vista (1932), do Alto da Boa Vista, são os outros “campeões cariocas dos pobres”, como alguns pesquisadores se referem. O fato de as glórias não serem conhecidas tem a ver, justamente, com distinção social.

A cisão

Em 1923, vindo da segunda divisão, o Vasco é arrasador e chega ao título sem maiores dificuldades. A presença dos “Camisas Negras”, de um clube que não era da elite, como eram os da Zona Sul, que permitia deliberadamente a presença de jogadores suburbanos, negros e pobres, incomodou um futebol que, à época, era extremamente elitista. Tanto que, para o ano seguinte, os clubes resolveram fundar uma nova liga. Saíram da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) — que organizava o campeonato desde 1917, e teve como campeões Fla, Flu, America, além do Vasco — e fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA). O Vasco seguiu na antiga liga e foi campeão em 1924 — chegou a ser convidado pela AMEA, sob condição de não usar atletas negros, o que negou a fazer. No ano seguinte, o Vasco é aceito na nova associação e deixa a antiga liga. Ela, no entanto, não morre, e seu campeonato principal, tratado pelos jornais em segundo plano — mas ainda assim como um torneio relevante —, seguiu até 1932. A CBD excluiu a LMTD em 1925.

Os vencedores do Carioca da LMDT não reconhecidos Foto: Editoria de arte
Os vencedores do Carioca da LMDT não reconhecidos Foto: Editoria de arte

Autor do livro “Footballmania: Uma História Social do futebol no Rio de Janeiro (1902-1938)”, o historiador Leonardo Affonso de Miranda Pereira, um dos acadêmicos mais respeitados sobre o assunto, corrobora com a demanda dos clubes, por entender que a história do futebol no Rio aconteceu em diferentes espaços sociais:

— O que aconteceu em 1924 foi uma divisão de ligas. O que está em disputa é o que a federação atual vai reconhecer como legítimo Campeonato Carioca. Ao fazer essa escolha (de só reconhecer os títulos dos clubes grandes) eles estão construindo uma memória do futebol. Na prática, eram campeonatos distintos. Na conversa de bar, eu diria que foram dois campeões a cada ano. A lógica de unificação, de construção da memória única seja do futebol, do estado, do país, é a lógica atual: queremos criar um fio de tradição. Mas, no Brasil, o futebol se construiu nesses diferentes espaços.

A Ferj, criada em 1978 e organizadora do Estadual desde então, reconhece os campeonatos da LMDT até 1924, mas não os de 1925 a 1932, vencidos pelos times de fora da elite. A decisão da federação não é sem base: os jornais, apesar de noticiarem diariamente os “campeonatos dos pobres”, já tiravam os campeões suburbanos das listas oficiais de campeões.

— A discussão é atual e parte da ideia de que os campeonatos (nacionais ou regionais) são únicos, pertencentes à nação ou ao estado, como se fossem oficiais. Mas são promovidos por ligas, que são entidade privadas. Não necessariamente essas ligas, ou federações, têm o poder de definir, sozinhas, quem é campeão daquele local. No começo do século era algo comum. Os clubes enfrentavam seus iguais dentro de ligas, que eram construídas por critérios variados: sociais, geográficos ou étnicos — diz o historiador da PUC-RJ.

America (4 vezes), Flamengo (3) e Vasco (1) foram campeões legítimos entre 1925 e 1932, ao vencerem os torneios da AMEA. Ter dois campeões no mesmo ano, por cisão de clubes em ligas diferentes, não seria novidade no Campeonato Carioca. Como dito, em 1924, há dois campeões: Vasco (LMDT) e Fluminense (AMEA), situação que se repetiu de 1933 a 1936, quando os clubes se dividiram em duas ligas (AMEA e LCF) por discordarem sobre a adoção do profissionalismo. A diferença é que, nesta cisão, havia clubes grandes e de elite dos dois lados da briga.

O grito silencioso do Engenho de Dentro, Modesto, Oriente e cia tem respaldo em outros campos. Um deles não muito distante. O Campeonato Paulista reconhece dois campeões por ano na época em que os clubes se dividiram entre a Liga Paulista de Foot-ball (LPF), das elites, e a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), de todas as classes sociais, ainda que os campeões da LPF sejam também clubes hoje extintos. O diferencial, de novo, é a distinção social: por lá, perduraram os clubes mais populares como o Corinthians e o Palestra Itália (hoje Palmeiras).

Ferj se posiciona

Revisões historiográficas do tipo acontecem no mundo todo por diversos motivos. A mais recente e importante foi em dezembro, na badalada MLB, principal liga de beisebol dos EUA. Chamada de “correção histórica”, a instituição equiparou as “Negro Leagues”, torneios que só podiam ser disputados por negros na época da segregação racial (1920 e 1948), às ligas Nacional e Americana. Com isso, mais de 3 mil jogadores negros da época entraram, com até 100 anos de atraso, nas estatísticas, recordes e até no Hall da Fama do esporte.

— No Brasil, a distinção é racial também. O caminho de afirmação do futebol foi nessas disputas, dos diferentes espaços sociais. Seria fundamental, ao menos, o reconhecimento de diversidade dos locais da prática do futebol: de ligas, de perfis sociais distintos, ao invés de uma História única, que se afirma linearmente até chegar no futebol atual — aponta o historiador. 

A Ferj afirmou que recebeu recentemente pedidos de reconhecimento e aguarda a formalização dessas requisições para avaliar documentos e registros históricos. “A Ferj é receptível a qualquer reivindicação ou pedido de reconhecimento” respondeu, mas salientando que análises são caso a caso.

O que seria do Engenho de Dentro ou dos outros clubes extintos se, há quase um século, fossem reconhecidos como campeões? Difícil prever o presente adivinhando o passado. Há tempo pra corrigi-lo, porém. Ainda que, para a maioria dos “campeões dos pobres”, já não exista mais ninguém para levantar o troféu e gritar “é campeão”.

Fonte: O Globo

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