Das pistas de atletismo a motorista do time de coração, Maurão viveu intensamente o Botafogo até ser vítima de COVID-19

0
191

Mauro Sampaio de Alcântara, 63, foi mais do que um motorista dedicado ao Botafogo. Ele adotou o ônibus do time como se fosse o filho homem que não teve. Se considerava o pai de tantos jogadores, treinadores, dirigentes e membros da comissão técnica que levou nos últimos 20 anos. Uma história de amor, mas também de dor, cujo ponto final veio da terrível COVID-19, em 6 de janeiro deste ano.

Maurão, como era conhecido, nasceu botafoguense e era maluco por tudo que estava ligado ao time da estrela solitária.

Também amava praticar esportes. No início da adolescência, conheceu o atletismo e foi um promissor corredor de prova de curtas e médias distâncias, como discípulo do professor Carlos Alberto Lanceta, técnico da seleção brasileira de atletismo nas Olimpíadas de 1976 e 1980 e um dos nomes mais respeitados da história desse esporte no Rio de Janeiro.

Quando Maurão começava a se destacar nos 1.500m e 3.000m, o coração dele começou a dar sustos.

Assim, deixou a Universidade Gama Filho e tentou retomar a carreira no clube de coração. Mas os médicos do Botafogo identificaram um tipo de arritmia. Não tinha jeito. Ele teve de se aposentar nas pistas e, consequentemente, do esporte.

Então, apareceu a chance de se tornar um profissional da estrada, o que foi visto com bons olhos. Afinal, Maurão adorava dirigir caminhão e abraçou a nova profissão com orgulho. Logo de cara ganhou um peso-pesado para trabalhar na empresa do pai.

Como a paixão pelo Botafogo só aumentava, foi nesse mesmo período que resolveu criar uma torcida organizada.

“Foi no início dos anos 1980. Ali surgiu a Raça Alvinegra. Eram outros tempos. Naquela época a gente saia na mão para resolver as discussões. Não existiam armas nem tanto ódio nas torcidas organizadas como hoje”, disse Sueli Alcântara, hoje viúva de Maurão.

Matrimônio alvinegro

Como líder de torcida, Maurão se aproximou ainda mais do Botafogo. Incontáveis vezes ele recebeu craques como Alemão e Josimar para churrascos na beira da piscina da própria casa, no Rio de Janeiro.

O contato com os jogadores do time do coração despertou uma incontrolável vontade de fazer parte daquele time.

Quem ajudou Maurão foi o professor Lancetta, que indicou o amigo para a vaga de motorista do clube.

No início, ele transportava uniformes do estádio Marechal Hermes, em Deodoro, para General Severiano, sede do clube, em Botafogo. Depois passou a dirigir Kombis ou Vans para transportar o material esportivo dos jogadores profissionais e da base.

A missão se perdurou até a chegada do “ônibus encantado”.

Amor à primeira vista

Em pouco tempo como funcionário, foi proposto a Maurão que ele se tornasse o condutor do ônibus do time. Foi no início dos anos 2000, quando o Botafogo fez uma parceria com a empresa Marcopolo.

O ônibus, que seria emprestado por 20 anos ao clube, acabou sendo o “filho” homem que Maurão não teve. Mas o veículo já chegou impondo um desafio ao botafoguense. Ele teria que vir de avião até São Paulo para buscar o veículo na garagem da empresa.

Uma viagem de menos de uma hora. Simples, mas…

“Ele morria de medo de viajar de avião. Não queria ir de jeito nenhum de avião, mas a diretoria do Botafogo exigiu que ele fosse para São Paulo para aí voltar com um funcionário da empresa do ônibus para treiná-lo no trajeto até o Rio. Lembro-me que dei calmante pra ele e, quando ele foi passar no raio x do aeroporto, foi a maior confusão. Ele carregava na mochila os talheres, que fizeram [o raio x] apitar. Ele disse, suando, que aquilo era um sinal que ele não deveria pegar o avião, que a aeronave iria cair e ele iria morrer”, disse Sueli.

No final, tudo deu certo, e o botafoguense chegou feliz da vida em São Paulo. E, ao encontrar o ônibus, foi amor à primeira vista.

“Ele deixava de consertar o carro dele para arrumar algo que tivesse quebrado no ônibus”, disse Yasmim, 33, única filha de Maurão.

Foram vinte anos de viagens, histórias e amizades inesquecíveis. Talvez por ficar muito tempo sentado, ter uma alimentação inadequada e não praticar exercícios físicos, a carreira de Maurão como motorista número 1 do Botafogo foi mais curta.

Em 2017, o homem de 1,80m estava sofrendo de sobrepeso. Tinha mais de 150 quilos. O joelho direito começava a chiar, a inchar e a incomodar bastante.

De cara, o então goleiro Jefferson, ídolo do Botafogo, encabeçou uma vaquinha para a cirurgia do amigo motorista. A princípio a intervenção teria sido um sucesso, não fosse o deslocamento da prótese no joelho numa sessão de fisioterapia.

O que era para resolver piorou a situação

Maurão foi orientado a fazer outra cirurgia, mas antes de mexer no joelho ele teria que passar por uma redução do estômago.

A cirurgia bariátrica, que custaria mais de R$ 80 mil, mobilizou a direção do Botafogo e virou até reportagem na TV Globo, mas não saiu do papel, frustrando demais o motorista.

Mesmo assim, Maurão continuou dirigindo seu amado “busão”. Sueli e Yasmim recordam que o levavam para o trabalho e que ele demorava praticamente uma hora e meia pra conseguir subir no ônibus, bem antes que chegasse alguém e percebesse as más condições físicas do motorista para exercer a profissão.

“Minha mãe levava ele, encostava o carro bem na porta do ônibus. Ela era quem mexia no motor pra ligar o ônibus. Ele entrava, sentava, escondia a muleta e ali ficava sem sair por horas. O massagista sempre levava gelo pra ele colocar no joelho. O porteiro, as faxineiras e outros funcionários da nutrição e fisioterapia levavam comida pra ele até terminar o trabalho. Foram três anos de sofrimento, até infiltração ele levou no joelho pra poder trabalhar”, desabafou Yasmim.

A filha de Maurão disse que foi aos treinos do Botafogo na tentativa de pedir para que os médicos do clube olhassem para o pai, para que operassem novamente o joelho de Maurão.

“Os médicos sempre falavam que não dava pra fazer nada antes da cirurgia bariátrica, que ele teria que perder peso, e assim ficamos, até que veio a primeira infecção de COVID-19”, disse Yasmin, que trabalha nas Forças Armadas, na área de radiologia.

Maurão foi infectado pelo novo coronavírus em setembro de 2020. O motorista não teve complicações graves, a não ser a ansiedade por ficar parado dez dias em casa. Mas a ansiedade e o sobrepeso prejudicaram ainda mais a grande inflamação que tomava conta do joelho.

Na última viagem que fez de ônibus, levando o time para o aeroporto Santos Dumont, Maurão ligou aos berros, à duas quadras do estádio Nilton Santos, gritando de dor pedindo, para que a filha fosse buscá-lo.

“Foi um dia muito triste. Foi a despedida do meu pai do ônibus. Ele chorava muito de dor no joelho e falava que sabia que nunca mais voltaria a dirigir o ônibus. Ali eu fiquei pensando como os médicos do clube deixaram que ele ficasse assim. Poxa, tem um lugar melhor que um clube de futebol para um médico ajudar a tratar do meu pai?”, desabafou Yasmin.

Dali para frente, o que estava ruim ficou pior.

A tão sonhada cirurgia de redução do estômago não veio, mesmo com a torcida do Botafogo arrecadando R$ 31 mil numa vaquinha virtual. Já era tarde demais.

Maurão ficou em casa sem conseguir por o pé no chão por dez dias até que a assistente social do clube, Maristela do Carmo, conseguiu uma vaga em um hospital especializado em ortopedia para internar e operar o funcionário do clube.

Maurão operou o joelho muito infeccionado. Permaneceu quatro dias na UTI. Voltou para a enfermaria onde recebeu muitas mensagens de jogadores e amigos.

O motorista estava praticamente curado do joelho, não fosse uma nova infecção que, segundo os médicos, havia tomado conta do pulmão. Ele foi reinfectado pela COVID-19, mesmo depois de três meses da primeira vez que testou positivo.

Maurão morreu no dia 6 de janeiro de 2021.

Para a família, a morte se deu por causa da infecção no joelho e pelo sobrepeso, que deixaram o organismo dele debilitado. Já os médicos disseram que foi um caso raro de reinfecção em pouquíssimo tempo. Eles acreditam que o vírus se manifestou numa hora que o organismo estava realmente debilitado.

Do Botafogo e da atual diretoria, que assumiu o clube em janeiro de 2021, Yasmim e Sueli não guardam mágoa. Elas aguardam a má fase do time passar – atualmente na Série B e fora da zona de classificação para a Série A – e torcem para receber o dinheiro da homologação que até hoje não foi acertado.

Para a família fica a saudade e uma certeza.

“É muito triste dizer, mas meu pai não era jogador de futebol, né? Era motorista. Então, pra eles, motorista… entendeu?”, disse Yasmin.

Fonte: ESPN

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui