Eduardo Barroca explica método de trabalho e ressalta: “acredito em adaptação, mas não aceito só jogar por uma bola”

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O bom filho a casa torna. O ditado popular virou realizado com Eduardo Barroca, que volta ao Botafogo menos de um ano após sair do comando do time em 2019. Dessa vez, o desafio é ainda maior: ajudar o clube a sair de uma de suas mais graves crises nos últimos anos.

Barroca, que citou “uma forte conexão emocional” com o clube do qual passou anos na base e estreou como profissional, concedeu entrevista exclusiva ao ge na qual fala, dentre muitas coisas, sobre seu modelo de trabalho, a transição entre base profissional, os desafios de jogar um futebol de construção com equipes de menor investimento e até citou dos muitos causos da carreira, que aconteceu no Bahia, em 2011. 

Ano passado ficou famosa uma entrevista em que você compara a posse de bola a um porrete, dizendo que sempre que possível, o Botafogo iria brigar por ela. É o modelo que você levou ao Coritiba, e em partes ao Vitória. Podemos dizer que esse apreço pela bola caracteriza seu modelo de jogo?

Penso nisso de uma forma mais ampla. Acredito que o treinador não deva ter um modelo de jogo dele, mas sim um modelo de trabalho. E tenho um modelo de trabalho definido, que tem seis pilares: organização, comunicação, envolvimento institucional, treinamentos, feedbacks e, claro, o modelo de jogo. Em cada desses itens há subitens, outros objetivos, por isso que é preciso entender de uma forma mais ampla. O treinador precisa ter outras competências além do modelo de jogo. Na verdade, ele precisa ser completo. Só dominando diversas áreas do esporte que o treinador consegue interagir com os profissionais do clube, consegue se comunicar com o jogador que não viaja, com aquele que precisa render mais e consegue criar uma conexão com o clube que está.

É uma ideia interessante. O treinador muitas vezes é avaliado pela forma que o time joga e até as sensações que esse time provoca no torcedor e na imprensa, mas pouco avaliado pelo trabalho de fato, que é mais invisível, que envolve o treino e outras competências. 

Penso que o treinador é avaliado por quatro coisas: os resultados que ele tem, como a equipe dele joga, como ele se comunica e as decisões que ele toma na carreira. Dificilmente um treinador consegue atingir excelência nesses quatro pontos. Pega os treinadores mais vitoriosos do país, traça uma régua na carreira delas. É muito complexo ser bem avaliado nesses quatro pontos. Então tentamos sempre equilibrar, procurar referências, melhorar sempre. A vida do treinador é um aprendizado eterno.

Você já citou várias vezes que divide seu trabalho em “microciclos”, que são conjuntos de alguns jogos com alguns objetivos específicos. Como surgiu essa ideia?

É verdade, levo isso em todos os trabalhos. Ano passado, no Botafogo, separei os momentos em quatro ciclos. Cheguei um pouco antes do Brasileirão começar e dividi o trabalho em quatro momentos, com alguns níveis de dificuldade. Já no Coritiba, por ser um início de trabalho, a divisão foi maior, foi em oito ciclos, com jogos fora de casa, por outras competições. Mas não é só com jogos. Quando você divide seus objetivos em recortes, o foco naquilo fica maior. Trabalho sempre com alguns objetivos claros para o jogo, para os 15 primeiros minutos. Isso dá clareza e aumenta o foco de atenção. 

Com o sucesso de Jorge Jesus e a vinda de vários profissionais estrangeiros no Brasil, vivemos num momento em que treinadores brasileiros estão sendo avaliados de uma forma muito mais comparativa do que era antes, sendo que muitos de uma outra geração, como Joel Santana e Levir Culpi, se aposentaram. Você vê essa questão por uma dessas quatro competências? Ou pensa que é uma situação mais complexa?

Você citou o Joel, e eu tive a oportunidade de ser auxiliar do Joel por várias vezes na carreira. Só quem conhece o Joel no dia-a-dia vê que ele é um treinador extremamente estrategista, com uma capacidade fora da curva de acessar o jogador. Tenho um profundo e imenso respeito por todos os técnicos e aprendo muito com eles. O que acontece é que o futebol, há alguns anos, tinha um nível de exigência coletiva que é menor que o nível de hoje. O contexto coletivo tem um peso maior, e não é só no futebol não. Na sua área também teve mudanças… 

Sem sombra de dúvida. Pega as redes sociais. Antigamente o jornalista escrevia uma ou duas matérias por dia. Hoje tem que pensar na matéria, texto pra rede social, imagem, engajamento….

Tá vendo! Afirmo que, sem dúvida, um dos jogos de um nível mais alto que tive na carreira foram as duas finais do Campeonato Paranaense agora contra o Dorival Jr. Jogo limpo, sem violência, sem antijogo. Dorival jogando num 2-3-5, com os laterais na linha do Wellington, os extremas dando amplitude e os meias fazendo infiltração. Estamos falando aí de um técnico que vem vencendo títulos, que está no mercado com bons trabalhos…precisamos valorizar esses bons profissionais. 

Você falou sobre acessar o jogador. Sua carreira começa na base, onde você lida com pessoas de uma maturidade diferente de um grupo profissional, por exemplo. Ano passado aconteceu a transição da base para o profissional. O que você sentiu que precisou mudar na forma de se comunicar e trabalhar das categorias de base para o profissional?


A principal diferença entre o jogador de base para o profissional é que o jogador de base depende muito mais das decisões do treinador – como colocar no time, dar sequência, escolher para o grupo – do que no profissional. A influência do treinador na base é muito maior que no profissional, onde há um contrato que protege o jogador e também passa por uma cultura que tira o técnico quando algo não vai bem. O jogador profissional precisa estar bem na cidade, com a família instalada, precisa olhar para o treinador e ter a confiança que ele se desenvolverá lá e vai ganhar outro nível e a ponta da pirâmide é uma “zona de criatividade”. Se você está bem, se sente confiante, se está seguro, se sabe que não será julgado, você cria. 

Casa com muita coisa isso que você falou….

Futebol é vida! Se você está numa empresa que ganha bem, mas não tem confiança no chefe, seu trabalho é ruim. Esse triângulo – segurança, confiança e envolvimento – vale para tudo. Só desempenha bem quem tem esses três fatores. O jogador quer sentir as mesmas sensações que ele tinha quando jogava na rua por diversão sim, mas também quando tinha segurança de estar entre amigos. Tentamos resgatar isso.

No início do ano, você passou pelo Coritiba e fez um trabalho com bons números, jogando melhor na final do Campeonato Paranaense, e acabou sendo demitido após uma derrota fora de casa para o Corinthians. O que você acha que faltou nesse trabalho? Continuidade?

Primeiro de tudo, entendo e respeito a decisão. Adorei trabalhar no Coritiba e torço muito pela instituição. Fui contratado para mudar a forma de trabalho do clube, e a forma de jogo também, e a diretoria entendeu que deveria seguir por um outro caminho, o que respeito. É normal. Entendo que os resultados não vieram. A pandemia acabou quebrando um pouco esse modelo de trabalho, até porque baixou nosso nível de competição interno, e os resultados refletiram isso. 

Um dos motivos da sua contratação pelo Coxa foi a busca por um modelo mais propositivo de futebol. Você se define como um técnico que sempre vai propor? E quando um time joga fora de casa, como adaptar esse modelo?

Eu sofro desse rótulo realmente, mas nunca fui um treinador apenas propositivo. Eu acredito na adaptação. E acredito que você nunca pode chegar para um ser humano e falar que você precisa passar noventa minutos se defendendo, se não vai perder do Flamengo no Maracanã. O jogador passa por muitas coisas para chegar na Série A do Brasileiro para fazer isso, para jogar no erro e por uma bola. Respeito quem faz, mas não aceitaria que um dirigente falasse isso para mim. 

E já aconteceu isso?

Eu estava no Bahia em 2011, o Renê Simões era o treinador, saiu e eu assumi como interino. Iríamos jogar contra o Flamengo, do Luxemburgo, e eu assumi o time de Z-4 contra o então líder. Aquele time tinha Carlos Alberto, Ricardinho, Souza Caveirão, Reinaldo…o mais bonzinho lá batia na mãe! Brincadeira, mas a gente não teve tempo pra treinar e nem nada. Reuni todo mundo e falei que a gente ia jogar de igual pra igual. Que se tinha quem pudesse fazer a diferença, era esse grupo aí. Nós não só ganhamos o jogo de 3 a 1, no Rio de Janeiro, como eles me disseram que eu falei justamente o que aquele grupo experiente, de muita qualidade, queria ouvir. Essa é a forma que encaro a vida. 

Imagino que essa maneira de encarar a vida tem um peso imenso para os jogadores de base, que são os que mais dependem do treinador, como você mesmo disse. 

Sem dúvida. Para citar um exemplo que o Pedro Venâncio (treinador da base do Corinthians), que é nosso amigo, me falou um dia desses: o Brasil tem 29 laterais e 10 zagueiros na Liga dos Campeões, mas poucos atacantes nos principais clubes, como o Roberto Firmino. O Pedro argumenta que muitos desses laterais têm origem de meia e vão recuando na carreira. Mas isso está mudando. Se você pegar a geração 2001, 2002 e 2003 que estão jogando no país, só o Calegari, do Fluminense, é um defensor. O jogador jovem traz um gap de erro muito menor que o do profissional. Ele oscila muito, e é normal pois está se desenvolvendo, e precisa ter um pouco dessa coragem de jogar com a bola.

Você acha que, de uma forma bem geral e pegando quem você treinou, o jogador gosta mais de ficar com a bola? E como aceita cumprir uma estratégia, fazer um jogo mais reativo?

É claro que gosta mais de ficar com a bola! A questão é a relação do jogador com a bola. Capacidade de jogar pressionado, de dar um bom primeiro toque, de dominar girando para manipular o adversário e achar um companheiro desmarcado. A responsabilidade do treinador nesse processo é atuar no coletivo, para que esse jogador com boa relação com a bola tenha companheiros próximos para que ele tenha muitas opções de decisão. Quantas vezes não vemos um meia errar e culpá-lo, quando não havia ninguém em condições de continuar o passe? Esse desenvolvimento coletivo é de responsabilidade do treinador. Quem tem boa relação com a bola precisa estar cercado de hábitos coletivos. 

Antigamente os jogadores com melhor relação com a bola atuavam apenas na frente, como meias ou ataques. Hoje você vê um Thiago Alcântara jogando de primeiro volante. É uma tendência ter construtores cada vez mais atrás, inclusive como zagueiros?

Sim. O futebol hoje caminha para times que pressionam cada vez mais na frente, em cima, fechando a saída. Se um time é pressionado no seu campo e tem interesse de fazer um jogo de construção, é preciso ter jogadores com boa relação com a bola. Assim, em qualquer situação de construção, você sempre tem uma superioridade e esse que sobra é o que manipula o adversário. Existem equipes que coletivamente pressionam de uma forma que, mesmo com inferioridade, criam problemas.

Fonte: Blog Leonardo Miranda – GE

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