Futebol brasileiro contrata profissionais no mercado de trabalho

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O mercado de trabalho do futebol tem passado por uma significativa mudança de gestão. Se antes praticamente 100% dos dirigentes esportivos chegavam aos cargos por indicações políticas e amizade, agora os clubes têm atraído profissionais qualificados de grandes empresas por meio de headhunters e anúncios no LinkedIn.

São os casos, por exemplo, de Botafogo, Santos, Cruzeiro e América-MG, entre outros.

No Botafogo, além do presidente eleito, o clube terá um CEO contratado por meio de processo seletivo liderado por uma empresa terceirizada. Os melhores candidatos foram selecionados após passarem por todos os trâmites de uma admissão. 

O rival Vasco também possui um CEO. No Santos, a nova gestão do clube está separando os profissionais da parte política do clube. Já o Cruzeiro conta com uma empresa especializada em seleção de executivos em busca de maior assertividade na contratação de seus colaboradores.

Os clubes não revelam os valores pagos a esses profissionais, alegando cláusulas de confidencialidade e sigilo nos contratos.

O Estadão apurou que, na maioria dos casos, os salários são equivalentes a outros setores do mercado, mas com o atrativo de remuneração extra com benefícios e premiações por metas alcançadas não só pelo seu departamento, mas também pelo time de futebol.

Estudo publicado pela CBF estima que, antes da pandemia da covid-19, a indústria do futebol empregava 156 mil pessoas no País. A pesquisa feita pela empresa Ernst & Young mostrou que o futebol brasileiro, em 2018, teve impacto de 0,72% no PIB nacional, ao movimentar R$ 52,9 bilhões. Somente os clubes, segundo o estudo da CBF, representavam 33% dos 156 mil empregos gerados pelo futebol no Brasil.

No Santos, o presidente Andres Rueda trabalhou no Bradesco e foi durante 20 anos diretor de tecnologia da Bolsa de Valores de São Paulo. Em 2000, resolveu montar sua própria empresa de tecnologia, especializada em atendimento ao consumidor. 

Chegou a ter 6 mil funcionários. Em 2019, vendeu a companhia para o Santander. Já aposentado do mundo corporativo, ganhou a eleição para presidente do Santos e, desde janeiro, iniciou o processo de reestruturação do clube, com a contratação de profissionais do mercado.

Existia uma cultura no Santos que, depois da eleição, o candidato que ganhava colocava o pessoal que o ajudou na campanha para trabalhar no clube. Isso gera uma instabilidade enorme no quadro de funcionários e você não consegue implantar uma política de carreira.

O custo era altíssimo porque a cada três anos havia uma troca muito grande de pessoal”, disse.

Para mudar esse cenário, Rueda tem trabalhado para separar as partes profissional e política da Vila Belmiro. O conselho do clube já aprovou um novo organograma. “Pegamos as áreas em que haviam problemas ou estavam faltando funcionários e contratamos a partir de um processo de seleção. 

Alguns cargos foram por meio de headhunters, identificando pessoas no mercado com o perfil do Santos. Para outras funções, fizemos anúncios nas redes sociais. As pessoas mandavam currículo, a gente analisava e contratamos as melhores.”

O Santos também passou a ter uma tabela de cargos e salários. Cada função possui cinco faixas e uma política de avaliação. Uma vez por ano, o desempenho do funcionário será analisado pelo seu gestor. Ele pode continuar no cargo, ser promovido ou demitido, como em qualquer empresa.

Já o Botafogo apostou em um regime diferente de contratação para encontrar o novo CEO do clube. O presidente Durcesio Mello acionou a empresa Exec, que atua há 11 anos no mercado de recrutamento de executivos. A missão era inédita.

Em vez de procurar profissionais para a área de diretoria, o foco foi buscar o novo responsável pelo comando do clube.

“Nossos clientes são indústrias, empresas na área de serviços e varejo. Foi a nossa primeira atuação no futebol. O Botafogo tomou uma atitude corajosa e foi o primeiro clube brasileiro a contratar com headhunter um CEO”, explica um dos sócios da Exec, Lúcio Daniel.

A partir da demanda do Botafogo, a empresa começou a procurar possíveis candidatos dentro de alguns parâmetros de exigência.

O foco foi principalmente em um nome experiente para conseguir liderar o processo de reconstrução do clube e gerir o trabalho dentro de ambiente político, como é o caso do futebol. E, para a surpresa dos headhunters, não faltaram interessados.

A lista de clubes brasileiros atrás de headhunters só aumenta. O mercado vive um momento de quebra de antigas resistências. Uma das empresas mais atuantes no ramo é a Tailor, responsável pelos processos seletivos de Cruzeiro, Atlético-MG, Santos e América-MG.

Bruno da Matta Machado, sócio da empresa, explica que há três anos os clubes começaram a dar mais espaço para esse tipo de processo seletivo.

“Temos de analisar até mesmo se o profissional é apaixonado por um outro clube e se terá a capacidade de separar o lado torcedor do trabalho”, afirmou Machado. Algumas vagas chegam a ter até 5 mil inscritos.

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