Gustavo Poli: Notícia de 2032

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A Liga Brasileira de futebol completou ontem três anos de existência. O sucesso tem sido impressionante. No ano passado, o produto Brasileirão foi vendido para 59 países — e já é considerado competitivo nos principais mercados. Em 2031, o faturamento de R$3 bilhões foi considerado satisfatório pelo CEO da LBF, Rodrigo Capelo, que prevê um incremento de 20% para o próximo ciclo.

Há uma década, em 2021, cogitar algo assim soaria ficção. A implantação da Liga parecia improvável. Os clubes sempre se desentenderam ao tentar dividir recursos. Anos de amadorismo tinham produzido dívidas bilionárias. A revolução tecnológica açodava ânimos e, no início dos anos 20, a promessa de novos valores aprofundava rivalidades. Os clubes mais populares julgavam merecer (e recebiam) mais recursos do que os rivais — o que criava sugestivo desequilíbrio técnico.

Flamengo e Palmeiras, os primeiros a se ajustarem financeiramente ainda no modelo amador, se tornaram dominantes nacionalmente. O Atlético-MG, graças ao apoio externo de empresários mineiros, foi o único clube a ameaçar o duopólio. Na segunda metade dos anos 20, o Corinthians reequilibrou suas contas e se tornou competitivo. Mas o que realmente mudou tudo foi o advento do clube-empresa.

O Bragantino, comprado pela Red Bull, foi o primeiro. Depois vieram os grandes sufocados por dívidas que pareciam impagáveis — Botafogo, Cruzeiro e Vasco. Sem alternativa, esses clubes quase faliram, passaram por recuperações judiciais e entregaram o futebol para investidores. A partir de 2023, com transparência e gestão profissional, se reestruturaram e recuperaram competitividade.

O grande cisma aconteceu em 2027, quando 26 clubes se uniram com uma proposta: administrar as Séries A e B do Brasileirão de forma coletiva com divisão igualitária de receita buscando equilíbrio competitivo. O argumento era simples: o produto é o campeonato. Apesar da resistência inicial dos mais ricos, a proposta passou quando a ideia de teto salarial foi abandonada. Clubes mais populares mantiveram diferencial em patrocínios, bilheteria e mensalidades.

O primeiro ciclo de negociação, em 2028/29, trouxe bons valores. Fora de campo, a Liga transformou e trabalhou o Brasileirão como um produto, profissionalizou gestão e arbitragem e investiu em tecnologia que permitisse a extensão de seu conteúdo em diversas direções. Em 2031, liberou com a FIFA a implantação de chips RFID nos uniformes e chuteiras e criou uma política de ampla transparência para decisões de campo.

Esse mar de dados integrado ao vídeo e a criação de modelos preditivos com uso de inteligência artificial mudou a forma de consumir o esporte. A informação dos chips transformou tudo: treinos, VAR, debates e polêmicas. O torcedor/consumidor passou a ter conhecimento de tópicos como velocidade do atleta (qual será o atleta mais rápido da partida?), localização de gols (primeiro gol será dentro da área?)… e a apostar neles.

A possibilidade de interagir (e apostar) via celular gerou uma brutal injeção de recursos — que a Liga promete expor no próximo balanço. Informalmente, é sabido que a Divisão de Entretenimento da LBF, que administra o Cartola (e seus 12 milhões de jogadores) e a relação com apostas, triplicou de faturamento em dois anos. O equilíbrio competitivo já gerou três campeões diferentes. O produto melhorou e, com mais recursos, tem sido possível atrair e desenvolver talento dentro e fora de campo. A ficção de dez anos atrás virou realidade.

Fonte: O Globo

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