Jornalista: “Acesso Total Botafogo e Cruzeiro mostram que não há SAF que garanta salvação”

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JORGE BRAGA
Foto: VITOR SILVA

Em meio a oito capítulos reveladores, a forma aberta como o Botafogo se expôs na série “Acesso Total”, do SporTV, oferece 11 minutos especialmente preciosos e educativos sobre o funcionamento de clubes no Brasil. Tudo acontece no impagável episódio 3.

Aos dez minutos, o presidente Durcesio Mello e o vice geral, Vinícius Assumpção, ambos amadores, aparecem numa sala com o CEO Jorge Braga. Sem qualquer representante do departamento de futebol, debatem a demissão de Marcelo Chamusca e planejam sondar um novo treinador por conta própria. Durcesio, celebrado por jogadores a cada aparição em vestiários para anunciar o pagamento de bichos, prometer demitir Chamusca se o time não vencer o Cruzeiro.

Pois aos 16 minutos do episódio o Botafogo já não venceu o Cruzeiro, e o presidente vê seu celular entupido de mensagens de “Fora Chamusca” enviadas por conselheiros. Num corredor do Nílton Santos, ele é a imagem da agonia.

Cinco minutos adiante reaparece Vinícius Assumpção. Com o goleiro Diego Loureiro, vai à rua conversar com torcedores. A eles, diz que está “buscando alguém que venha para resolver”, referindo-se a um novo técnico. Mas notem: naquele momento, Chamusca ainda está no cargo.

Como se não bastasse tal constrangimento, o executivo de futebol Eduardo Freeland vive outro. Junto com Kanu e Joel Carli, sob os olhares de um PM armado numa sala do estádio, ouvem um torcedor de organizada, do alto da autoridade que o clube lhe conferiu, dizer a Kanu: “Você não vai falar comigo do jeito que falou (com torcedores) no jogo com o ABC”.

É justo o espectador duvidar que tal enredo, permeado por salários atrasados, vá terminar em título. Ex-dirigente do Barcelona e hoje no Manchester City, Ferran Soriano escreveu “A bola não entra por acaso”, livro em que defende processos como premissa para resultados. Talvez, a série o convencesse de que não é tão incomum a bola entrar por acaso. Só é mais fácil entrar quando se tem um projeto.

Não se trata de desmerecer a boa intenção de Durcesio, a tentativa de Freeland de impor racionalidade ao caos, ou o trabalho de Enderson Moreira e dos jogadores. O Botafogo ganhou a Série B com méritos. Mas de constatar que aquele não era um clube pronto para ganhar. O que é um debate rico em tempos de SAF.

A chave não está em ser apologista do modelo associativo ou da criação de empresas. O segredo é gerir bem. Mas o “Acesso Total” oferece fartos argumentos sobre os obstáculos que se colocam na tomada de decisões de dirigentes voluntários, protagonistas na gestão de clubes associativos tradicionais. Durcesio e seus pares deixam claro o quanto é difícil blindar o futebol dos processos políticos.

Na chegada de Ronaldo ao Cruzeiro, pode soar chocante que, no lugar de realizar a fantasia de fazer jorrar dinheiro, o novo dono proponha o orçamento mais curto dos três anos do clube na Série B. A rigor, ele busca cortes do tamanho que nenhuma gestão amadora se dispôs a fazer. Em parte, pelo contexto politizado de um clube associativo, envolto nas ansiedades e paixões de conselheiros e cartolas amadores.

O modelo tradicional tem sua parte no endividamento bilionário de Botafogo e Cruzeiro. Pela via das receitas orgânicas, a recuperação soava tão utópica quanto imaginar investidores injetando dinheiro para cartolas amadores, que fabricaram tais dívidas, administrarem. Não há SAF que garanta salvação, mas a esta altura não parecia restar outro caminho a Botafogo e Cruzeiro. Apenas torcer para que a bola voltasse a entrar por acaso.

Fonte: O Globo

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