Jornalista botafoguense questiona: “É melhor torcer pro Barcelona ou pro Botafogo?”

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Tenho medo que meu filho prefira um time estrangeiro ao meu. Posso até engolir que escolha o do pai, mas torcer, realmente torcer, por um clube de fora sempre me pareceu extremo.

Já faz bastante tempo que vemos garotinhas e garotinhos vestindo a camisa do Real Madrid ou do Barcelona, até aí nada de novo. Agora, porém, a concorrência é mais variada: Manchester City, Bayern, Juventus, Chelsea, Tottenham (!), daqui a pouco será o Borussia por causa do Haaland, não tem fim.

Vale pontuar que o acesso restrito às partidas, na sua maioria ainda transmitidas apenas por canais e serviços pagos, limite esse público. Esta matéria do UOL traz informações bem interessantes sobre a europeização da torcida brasileira.

Além da qualidade dos campeonatos europeus ser, na média, mais alta do que a nossa, os jogos passam aqui de manhã ou à tarde, não às dez da noite. A mídia não cobre tão de perto a vida particular dos atletas, então fica mais fácil acreditar que sejam gente boa. O jogo é mais rápido, mais plástico, mais parecido com o videogame. Até algumas camisas são mais bonitas. O marketing é melhor.

Na adolescência, eu acompanhava de perto os times nos quais atuavam meus jogadores favoritos. Foi o Arsenal com Bergkamp, a Inter com Ronaldo, o Real Madrid com Zidane e assim por diante. Mas eu nunca torci, com a alma e o coração, para estes clubes – só queria ver os melhores em campo.

Apesar de tudo e qualquer coisa, a ideia de trocar meu time brasileiro, o time do meu pai e dos meus avós, por um sem nenhuma relação com minha família, meu país, parece até meio bizarra. Uma coisa pragmática demais para combinar com o futebol.

É um devaneio pensar que deixaremos de perder nossos maiores talentos para ligas mais ricas. A Premier League, muito provavelmente, manterá sua hegemonia e altíssimo nível técnico por décadas. Mas o futebol deles não é o nosso. A casa deles não é a nossa.

Como passar para sua filha a paixão por um clube que talvez ela nunca veja jogar pessoalmente? De gente que não fala sua língua? Para quem seus avós não torceram? Cujos adversários nunca zoaram você na porta da escola?

Tradição importa. Pertencimento importa. Seria muito triste alienar uma geração de torcedoras e torcedores porque alguns países têm mais dinheiro que o nosso – até porque no quesito talento sempre estaremos bem posicionados. Ainda que, hoje, seja difícil se apaixonar pela Seleção, com titulares sem protagonismo nos próprios clubes.

Um dos meus melhores amigos é de Manchester e torcedor do City desde os anos 1960 – quando por aqui nem se sabia que o City existia. Ele mandou um uniforme completo para o meu filho, lindo. Está no armário, guardado, até que o pai dele e eu decidamos qual camisa brasileira o moleque vai vestir primeiro. A história não registrará que seu primeiro manto tenha sido gringo. É o mínimo que posso fazer por ele.

Fonte: Blog Alicia Klein – UOL

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