Louvor ao Glorioso Botafogo e sua constelação histórica de craques

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Fosse o futebol um soneto, alguns dos mais belos versos seriam dedicados à Estrela Solitária, considerando a condição dupla, de astro fadado à solidão e ao bom destino de um perfil identitário baseado em aura e autenticidade.

Em um breve exercício de premiação, torna-se imperativo ao ser, enquanto ser, praticar o dom da nostalgia, lembrando aquilo capaz de alegrar, ou, na falta da experiência, é possível buscar conhecimento junto a mitógrafos, a fim de tocar o louvor aos ídolos do Botafogo.

A décima musa pode assoprar aos ouvidos do apreciador da linguagem artística da bola, aderindo no culto ao Bota, representando com fidedignidade o maior fornecedor de craques da Seleção, além de não ter tanta ajuda dos wrights da vida, como o antípoda Flamengo.

Vamos verificar com quantos heróis se diz Botafogo, desculpando-nos pelas lacunas, pressupondo a memória como a faculdade de esquecer, e o saber, necessariamente incompleto, refutável e provisório.

Começo pelo gol, com o grande Manga e suas mãos fraturadas, de forma tal a agarrar a bola como um engaste, qual titânide mutante, erguendo-se o arqueiro incomum das sombras de Wendell e Ubirajara na regra-3 deste Botafogo atemporal porque eterno.

Na lateral direita, vamos de Perivaldo, revelado aqui no Itabuna e projetado pelo Bahia, formando no time tetracampeão de 1976; e Josimar, autor de dois golaços na Copa de 1986: dois craques pretos revezando.

O beque Osmar Guarnelli formaria par com Hércules Brito Ruas, tricampeão em 1970, o primeiro saindo com a bola grudada aos pés, enquanto o parceiro estaria sempre pronto a educar o atacante, demarcando linha limite até onde poderia avançar sem precisar de cirurgia.

Na ala esquerda, a disputa é entre o reinventor da posição, Nilton Santos, ao marcar o segundo sobre a Áustria, na Copa de 1958; e Marinho Bruxa, tempero da técnica de Michelangelo com o veneno nas cobranças de falta. Ainda tem Rildo ou Rodrigues Neto!

O volante titular é Carlos Roberto, recordista de jogos com a camisa alvinegra, servindo bem a Gérson, o Canhotinha de Ouro, Didi e sua folha-seca, meu caro amigo Afonsinho e o arisco Mendonça, ao entortar Júnior, em lance sempre repetido e, ao mesmo tempo, inédito a cada vídeo-tape.

No ataque, o poema à Estrela Solitária tem sua hora-auge com a figura do imarcável ponta de um drible só: Mané Garrincha, titular do Monte Olimpo F.R., megadeus das crianças, dos artistas, dos bêbados e dos passarinhos, vivos ou mortos: eis aí o glorioso vômito de Dioniso!

Zequinha e Rogério têm a honra de comer banco para Garrincha, em ataque superdotado de Jairzinho, o Furacão; El Lobo Fischer; Ferreti; Amarildo, o Possesso; Roberto Miranda; Cláudio Adão; e Túlio, talvez a última lenda, unindo bom humor ao balançar do filó.

A ponta esquerda teria Zagallo, deus da Obediência Tática, enquanto Dirceuzinho ginga em modo criativo, e Mário Sérgio Pontes de Paiva não permite às palavras darem conta da sua canhota, cultuada em Salvador com nome de avenida.

Não poderiam escapar dos versos o brilho do genial ‘malcolm X’ Paulo César e o silêncio de Quarentinha, homem-gol cujo senso de dever o impedia de comemorar pois achava obrigação botar lá dentro. Agora, falta só o técnico: João Saldanha ou Tim?

Paulo Leandro é jornalista e professor doutor em Cultura e Sociedade.

Fonte: Correio 24 horas

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