O BOTAFOGO EM GENERAL SEVERIANO (CAPÍTULO 1)

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Após a grande conquista do Campeonato Carioca de 1910, quando o Botafogo consagrou-se O GLORIOSO, transcorria o ano de 1911, e a nossa equipe disputava de forma brilhante o Campeonato Carioca de 1911, quando, em 25 de junho, na partida contra o América, ocorreu o memorável incidente entre o nosso atacante Abelardo de Lamare e Gabriel de Carvalho, do time tijucano.

Abelardo de Lamare

Abelardo, ofendido por Gabriel, reagiu com um bofetão no jogador do América e o Botafogo, solidário com seu atleta e já sabendo que a Liga Metropolitana de Football o suspenderia por um ano, nem aguardou o pronunciamento da Liga e desfiliou-se.

Com essa atitude, o Botafogo Football Club sacrificou a possibilidade, quase certa, de um bicampeonato, além dos atrativos de um campeonato oficial.

No princípio, a situação não foi tão difícil, pois o Alvinegro era o campeão da cidade, jogava em um bom campo na Rua Voluntários da Pátria e tinha o decisivo apoio de três dos maiores clubes paulistas – o S.C.Germania, o S.C. Americano e a A.A.Palmeiras (nada a ver com o atual Plameiras), que vinham ao Rio, trazendo suas primeiras e segundas equipes, para enfrentar os nosso times de primeiro e segundo quadros, causando enorme prejuízo às rendas  dos jogos da Liga Metropolitana, reduzida a quatro clubes: Fluminense, América, Paissandu e Rio Cricket.

Em 20 de agosto, na tarde em que enfrentamos a A.A.Palmeiras no campo de Voluntários da Pátria, o Botafogo desviou grande público do jogo internacional, Fluminense x Combinado Uruguaio, marcado para o mesmo horário.

Campo da Voluntários da Pátria

Surge, então, o mais terrível golpe em 1º de outubro: a Diretoria do BFC tomou conhecimento de uma carta do Sr. Pedro Nolasco, procurador do proprietário do campo situado na Rua Voluntários da Pátria nº 459, comunicando que o proprietário não pretendia renovar o contrato de locação, eis que, desejava vender o terreno, e que, caso o Botafogo não pudesse adquirir, o terreno seria retalhado.

Isolado, o Botafogo não podia sequer pensar em adquirir o imóvel e nomeou uma comissão para tratar da mudança, integrada por Hermann Palmeira, Pedro Martins da Rocha e Augusto Fontenelle.

Em 12 de novembro de 1911, a Assembleia Geral elegeu a seguinte Diretoria para enfrentar as terríveis dificuldades de 1912: Presidente, Joaquim de Lamare; 1º Vice-Presidente, Hermann Palmeira; 2º Vice-Presidente, Emanuel Sodré; Secretário, Augusto Fontenelle; Tesoureiro, Alfredo Chaves; Capitão Geral, Hugh Edgar Pullen e membros da Comissão de Esportes, Pedro Martins da Rocha, Anselmo Mascarenhas e Luiz de Paula e Silva.

Presidente Joaquim de Lamare

Iniciamos o terrrível ano de 1912, sem sede, sem campo, sem filiação à Liga Metropolitana e quase sem sócios. O Clube passou a sobreviver graças à apaixonada dedicação de um pequeno grupo de pessoas e ao seu excelente time de futebol,  que não perdeu nenhum de seus grandes jogadores. A residência de Hermann Palmeira, na rua Barão de Icaraí nº 28, passou a servir de sede ao Clube.

Decidido a partir para a luta, o Botafogo fundou a Associação de Football do Rio de Janeiro (A.F.R.J.), com o apoio de pequenos clubes – S.C. Americano, Catete F.C., Internacional E.C. e Paulistano F.C. (de Petrópolis). Em 26 de abril, Hermann Palmeira foi eleito Presidente da A.F.R.J.

O Campeonato, iniciado em 12 de maio, foi organizado para ter os jogos disputados em um campo em más condições, pertencente ao Internacional E.C., situado na Rua São Clemente nº 194, sendo que, em 6 de junho passou à posse da A.F.R.J., que assumiu a locação.

Dessa época caótica e, ao mesmo tempo, heroica, não existe uma única ata de reunião de Diretoria, sequer um documento escrito no arquivo do Botafogo.

No Jornal do Brasil de 27 de maio, há um apequena nota com o relato de que houve uma reunião secreta no Botafogo F.C., para resolver acerca da dissolução ou do reerguimento do Clube, prevalecendo a segunda hipótese. Foi, então, nomeada uma Comissão sob a direção de Alfredo Couto para cuidar do que fosse necessário.

Alfredo Couto

Dessa forma, nasceu o “Comitê de Salvação”, que foi composto pelos seguintes nomes, que constam de um Quadro de Honra de 1917: Hermann Palmeira, Alfredo Couto, José Couto, Eduardo Alexander, Luiz Rebelo, Álvaro Werneck, Antonio C. da Mota Junior, Edgar Pullen, Normann Hime, Gastão Teixeira e outros.

Alfredo Couto relatou no Boletim do Botafogo de outubro de 1941: “Assistíamos a um jogo no campo do Fluminense. Ao meu lado, estavam os sócios do BOTAFOGO, Paulo Martins, Eduardo Alexander, Luiz Rebelo e Antonio da Mota Junior. Na arquibancada, comentava-se:  “O BOTAFOGO morreu, acabou!”

Esses sócios combinaram reerguer o BOTAFOGO. No dia seguinte, cedo, fui à rua General Severiano ver o terreno da Saúde Pública. Falamos ao Dr. Graça Couto, que nos disse que o terreno pertencia ao Ministério da Justiça. Fomos, em comissão, à casa do Senador Lauro Sodré, pedir-lhe uma carta de apresentação para o Diretor da Saúde Pública, Dr. Carlos Seidl.

Este recebeu bem a comissão, dizendo que no terreno havia um prédio em ruínas e que estava há muitos anos abandonado. Seria muita despesa para fazermos ali um campo de futebol. Respondemos que o faríamos. Mandou-nos ao Ministro da Justiça, Dr. Rivadavia Corrêa. Fomos, antes, o Dr. Gastão Teixeira, oficial de gabinete do Presidente da República e que falou ao Ministro, em Palácio, pedindo-lhe o que nós queríamos. Eu e o Rebelo, todos os dias, estavamos no Ministério. Um dia conseguimos dizer a S.Exa., que desejaríamos o terreno da rua General Severiano. O Ministro respondeu que só faria o contrato a título precário, o que aceitamos, pelo prazo de sete anos, com aluguel de Réis 300$000 mensais.

Ruínas no terreno de General Severiano

O Diretor da Saúde Pública recebeu ordem para lavrar o contrato. Assinado o contrato, realizamos uma assembleia, no porão da casa de Joaquim de Lamare, à Rua Marquez de Olinda. Compareceram apenas sete sócios, os cinco da comissão e mais Arthur Cabral e Carlos de Pino. Tratamos de fazer o campo, demolir o prédio, que era uma construção toda de cantaria. Tivemos de empregar dinamite. Feito o campo, que custou Rs: 8.500$000, tratamos de preparar as arquibancadas”.

Bibliografia consultada:

– Mendes de Oliveira Castro, Alceu – “O Futebol no Botafogo – 1904 a 1950” – Gráfica   Milione Ltda – 1951

– Miranda, Luiz Felipe Carneiro de, e Pepe, Braz – “Botafogo, o Glorioso: Uma História em Preto e Branco – Edição dos Autores – 1996. 

Por Luiz Felipe Carneiro
  Grande Benemérito e Historiador do Botafogo de Futebol e Regatas.

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