Pandemia e ações milionárias na Justiça explicam déficit de R$ 139 milhões do Botafogo

0
88

O balanço financeiro de 2020 divulgado pelo Botafogo na última semana trouxe elementos que explicam a combalida saúde dos cofres do clube, com um dado específico que despertou a atenção: o déficit de R$ 139 milhões. O valor é seis vezes superior ao número de 2019, que foi de quase R$ 22 milhões. 

Alguns fatores ajudam a explicar o aumento do prejuízo, como redução das receitas de TV, perda em bilheteira e premiação. Tudo somado à retração da economia em razão da pandemia do novo coronavírus. Só que um termo bastante usado no documento é a principal razão do rombo: “provisão para contingências”. 

Primeiro, de volta ao básico. Com a crise mundial causada pelo vírus, era esperado que o clube arrecadasse menos receitas do que na temporada anterior, até porque passou grande parte de 2020 com portões fechados para o público. A queda na arrecadação com bilheteria, por exemplo, caiu de R$ 10,6 milhões para pouco mais de R$ 2 milhões de um ano para outro. 

As receitas do Botafogo fecharam em R$ 156,5 milhões na última temporada, o que representa uma perda de quase R$ 50 milhões (25%) em relação a 2019, quando arrecadou R$ 202,3 milhões.

Nas despesas gerais e administrativas, o aumento foi de mais de R$ 10,3 milhões de um ano para o outro. Muito em função do que está denominado como “Custo repasse de direitos federativos/econômicos”, que seria a aquisição de direitos de atletas: em 2020, isso custou R$ 16,2 milhões, enquanto em 2019 o valor ficou acima de R$ 1,3 milhão.

Provisão para contingências

O que pode explicar melhor a diferença de mais de R$ 117 milhões no déficit de um exercício para o outro é a tal provisão para contingências. No balanço, o termo está relacionado a um saldo negativo de R$ 122,8 milhões. Para deixar o torcedor mais tranquilo, isso não significa que o clube necessariamente desembolsou esse valor, mas é referente à possibilidade de penhoras em processos que correm na Justiça.

 

Balanço financeiro do Botafogo consta saldo negativo de mais de R$ 122 milhões para provisão para contingências — Foto: Reprodução

Balanço financeiro do Botafogo consta saldo negativo de mais de R$ 122 milhões para provisão para contingências — Foto: Reprodução 

Os valores apontados estão de acordo com probabilidade de derrotas nos tribunais. O departamento jurídico e assessores externos analisam e entregam pareceres ao financeiro do clube. Resultados negativos nos processos são classificados como prováveis, possíveis ou remotos. Pelas normas técnicas da contabilidade, o que é classificado como “provável” deve ser separado no orçamento para esse pagamento futuro, mesmo que haja chance de escapar.

A mais significativa das causas que entraram nessa categoria é os cerca de R$ 40 milhões que a Odebrecht cobra do Botafogo. O valor é referente ao empréstimo recebido com a interdição do Nilton Santos, em 2013. Segundo membros da atual gestão, era um valor que deveria constar no balanço há tempos, já que, de acordo com eles, nunca foi uma briga que estivesse perto de ser vencida pelo clube. O Botafogo segue na Justiça para evitar a execução da dívida. 

Outro processo que pode gerar uma perda grande para os cofres do Botafogo é o da Fila, que forneceu material esportivo para o clube entre 2009 e 2011. A empresa cobra uma dívida que hoje está em torno dos R$ 16 milhões depois de ter tido o contrato rescindido de forma unilateral. O acordo firmado era até a Copa do Mundo de 2014. Muitos processos trabalhistas, que são aproximadamente 300, também estão entre as prováveis derrotas judiciais. 

Para tentar entender um pouco melhor a justificativa para o aumento e como o clube pretende resolver essa questão, o ge enviou duas perguntas ao Botafogo, que respondeu assim: 

Quais são os critérios para separar essa provisão?

1 – A entidade tem uma obrigação presente (legal ou não formalizada) como resultado de evento passado: isso significa que processos em que estejam sendo discutidos, sobre litígios que aconteceram no passado e ainda não tiveram decisão condenatória.

2 – Seja provável que será necessária uma saída de recursos que incorporam benefícios econômicos para liquidar a obrigação: o grau de classificação de risco (provável, possível e remoto) desses processos são realizados pelos assessores jurídicos externos do clube, que classificam todas as ações judiciais que o clube possui. 

3 – Possa ser feita uma estimativa confiável do valor da obrigação: esse valor é calculado pelos advogados externos e validado internamente e pelos auditores externos, tem como base de partida o valor pedido na petição inicial e atualização dos valores ao longo do tempo. 

Se essas condições não estiverem cumulativamente satisfeitas, nenhuma provisão deve ser reconhecida. 

Como o clube pode pagar essas dívidas?

A estratégia de enfrentamento da dívida é baseada no simples pagamento de juros (serviço da dívida) atrelado a uma gestão meticulosa do caixa, e constante priorização e renegociação com credores. O objetivo de médio/longo prazo é que através da S/A se consiga capturar recursos na forma e quantidade suficiente para enfrentar a totalidade da dívida.

Fonte: ge

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui