Rodrigo Capelo: O que Ronaldo Fenômeno e John Textor precisam fazer para Cruzeiro e Botafogo darem certo

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“Boy, you’re going to carry that weight, carry that weight a long time”. Paul McCartney escreveu este refrão em 1969. Os Beatles enfrentavam problemas entre eles e estavam encrencados financeiramente. John Lennon, George Harrison e Ringo Starr cantam com Paul, em uníssono. “Garoto, você vai carregar esse peso, carregar esse peso por muito tempo.”

Essa canção havia ficado na minha cabeça por dias e dias, após assistir a um documentário, antes do Natal, e voltou com as notícias. Ronaldo compra o Cruzeiro! John Textor compra o Botafogo! Conhecendo um pouco do futebol brasileiro, do negócio desse esporte e dos desafios financeiros e midiáticos que aguardam os investidores, meu sentimento era o de Paul.

Passaram-se só três semanas, desde que ambos foram anunciados como futuros proprietários dos clubes, e algumas percepções mudaram. Textor foi recebido no aeroporto, no Rio de Janeiro, por botafoguenses eufóricos. Ronaldo dispensou um ídolo e ouviu xingamentos de cruzeirenses. Crise fora de hora. Dois lados — um divertido, um pesado — do mesmo negócio.

No curto prazo, esses empresários desembolsarão grana para urgências. Salários atrasados, dívidas que estão sendo cobradas por clubes estrangeiros na Fifa. Nesse aspecto, a vida de Ronaldo é mais difícil do que a de Textor. O Cruzeiro está mais enrascado do que o Botafogo.

Outras dívidas pesarão por muito tempo. Obrigações cíveis e trabalhistas levarão dez anos e consumirão 20% das receitas dos clubes. Ainda há dívidas tributárias. A lei da SAF foi redigida com falha inexplicável — ninguém entende ainda por quê —, ao não prever um meio para o pagamento ao governo. De qualquer jeito, os clubes-empresas serão responsabilizados.

Como esses fatos interferem na vida prática? Cada centavo colocado em urgências, de imediato, deixará de ser investido em estrutura e novos atletas. E cada centavo direcionado ao pagamento de dívidas, ao longo dos anos, não poderá ser usado para aumentar a folha salarial.

Façamos um cálculo grosseiro. Digamos que o faturamento desses clubes chegue em breve a R$ 200 milhões por ano. R$ 40 milhões vão para dívidas trabalhistas e cíveis, certo? Na parte tributária, um chute embasado: lá se vão mais R$ 10 milhões por ano. Significa que “sobram” R$ 150 milhões para folha do futebol e todas as outras despesas, inclusive administrativas.

Melhor do que hoje? Óbvio. Porém, menos da metade do que gastam Flamengo e Palmeiras lá em cima. Menos do que Atlético-MG, Corinthians, São Paulo e Internacional. Em nível próximo ao de adversários competentes: Athletico, Red Bull Bragantino, Ceará e Fortaleza. Além disso, infelizmente, alguns clubes operam à base de irresponsabilidade e calote. Falta sistema de fair play financeiro para tornar menos vulnerável a posição de Ronaldo e Textor.

Eles podem ganhar esse jogo, se conseguirem combinar eficiência no gasto e aumento das receitas. Para tanto, precisarão investir no futebol e acessar premiações maiores, na Copa do Brasil e na Libertadores. Se não bastasse a dificuldade, ambos estarão sob críticas de torcidas e imprensa, geralmente desmedidas. E eu? Torço para que consigam, enquanto ouço a canção do quarteto britânico. “Boy, you’re going to carry that weight, carry that weight a long time”.

Fonte: O Globo

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