Segurança do Botafogo por 26 anos tenta não se abater com demissão e pede que clube não se esqueça de sua grandeza

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Quando chegou para trabalhar na última terça-feira no Nilton Santos, Ivan Joaquim não teve muito o que fazer. Foi logo chamado por Eduardo Freeland, diretor de futebol do Botafogo, para conversar. Estava sendo demitido após 26 anos. Ao ver a despedida de outros funcionários — cerca de 100 foram desligados de uma só vez —, imaginou que, se fizesse o mesmo, talvez não segurasse a emoção.

— Eu não ia dar esse gostinho para ninguém. Saí de cabeça erguida — conta o agora ex-segurança, que em duas décadas viveu a ultima grande glória (o Brasileiro de 1995) e a derrocada do terceiro rebaixamento.

Ivan é um homem cheio de nuances. Alto e forte, faz musculação em casa e diz estar bem fisicamente, no alto de seus 55 anos que, pela aparência, poderiam ser dez a menos. Quando questionado se já teve de usar a força para proteger os jogadores, diz que sim. Lembra da confusão ocorrida em 2007, quando alvinegros foram protestar contra o time eliminado pelo River Plate na Sul-Americana. O caldo entornou quando um segurança contratado acertou um soco num torcedor:

— Foi uma pancadaria.

Ao mesmo tempo, é médium de um centro espírita há 17 anos, o que o torna raridade no futebol e sua maioria evangélica. Gosta do ex-presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores, outra exceção no meio conhecidamente bolsonarista. Apesar das diferenças, é descrito por todos como um dos funcionários mais queridos do clube. Agora, ex.

Desde a saída, Ivan convive com sentimentos distintos. A gratidão intacta pelo Botafogo cabe no mesmo coração que sente a mágoa por não ter conseguido se aposentar no clube que aprendeu a amar. Ele consegue isentar a diretoria de culpa pela demissão e para isso cita a dívida alvinegra, que bate na casa do R$ 1 bilhão. Ao mesmo tempo, diz:

— Todos me conheciam, meu trabalho. Se demitiu, é porque não sirvo mais.

Serve de consolo a quantidade de mensagens que recebeu imediatamente após ter utilizado as redes sociais para se despedir. Ivan é descrito por Carlos Augusto Montenegro como um “soldado leal”. Ele trabalhava como vigilante quando surgiu o convite para atuar como segurança em uma partida contra o Fluminense, ainda em 1994, na gestão do ex-presidente do Botafogo. Depois disso, não parou mais. Ainda novo, viveu o auge com o título brasileiro.

— Montenegro foi campeão brasileiro. As pessoas perderam a noção. Já vi muitos falarem mal dele. Acho injusto. Mas quem disse que a vida é justa? Se fosse, eu não teria sido demitido — ri.

Ivan é casado há 34 anos e tem dois filhos. Mantém o bom humor, apesar da fase difícil que atravessa: perdeu o pai em 2019, vítima de chikungunya. Em 2020, veio a pandemia, que fechou o centro espírita. Agora foi demitido do Botafogo.

Ele lembra com carinho de Bebeto de Freitas, presidente entre 2003 e 2008, falecido em 2018. Elogia Oswaldo de Oliveira, Seedorf e sorri quando recorda as “loucuras” do ex-meia Carlos Alberto. Elkeson foi o maior amigo que fez. Perguntado se aceitaria voltar a trabalhar no clube, afirma:

— Se for definitivamente, sim. Não tem essa de me chamarem para trabalhar em um jogo. Quem faz ponta é ator de novela.

Gesticula mais quando tenta explicar o momento do Botafogo. Vê o time atual com o mesmo espírito do de 2020, o que o preocupa. Diz que o Bota nunca vai acabar, mas admite a apreensão:

— Eu vivi o Botafogo, ele é uma massa. Nunca deixará de ser time grande. Quem está no clube não pode deixar isso se perder.

Se, durante o tempo como segurança, Ivan pudesse ter impedido algo, seria o episódio do chororô (como ficou conhecida a coletiva pós-derrota para o Flamengo na final da Taça Guanabara de 2008). Para não chorar na frente dos outros como os jogadores, ele não falou com ninguém na terça-feira. Subiu na moto e partiu para Rocha Miranda, onde mora, deixando tudo para trás.

Fonte: O Globo

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