Site: O mais belo gol do Botafogo na Série B

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É compreensível a ponderação de que o temor de uma punição tenha tido algum peso na decisão do Botafogo de entregar uma carta com um pedido de desculpas à assistente de arbitragem Katiuscia Mendonça, alvo de ofensas machistas durante a vitória alvinegra sobre o Brusque. Ocorre que, mesmo se motivada por alguma dose de finalidade esportiva, o gesto terminou por produzir uma cena raríssima no futebol brasileiro: um clube de futebol transmitindo à sociedade e, em especial, ao grupo de torcedores que ofendera Katiuscia, a mensagem de que não é mais possível normalizar determinados comportamentos.

Botafogo se desculpa com bandeirinha após xingamentos da torcida — Foto: Reprodução/Twitter do Botafogo

Botafogo se desculpa com bandeirinha após xingamentos da torcida — Foto: Reprodução/Twitter do Botafogo

Não é usual vermos a instituição se posicionando de maneira firme em relação ao comportamento de uma parcela, mesmo que pequena, de sua torcida. O Botafogo deixou claro que não concorda, não tolera aquela conduta, e a forma de fazê-lo teve a virtude da resposta rápida e um bonito toque de sensibilidade.

Mas o episódio, acima de tudo, deve servir para a reflexão sobre o que queremos de um estádio de futebol. Pensar num ambiente menos tóxico não precisa, necessariamente, carregar uma utopia de transformá-lo num teatro, ou num recinto imune a palavrões ou a qualquer mínimo arroubo decorrente das reações passionais que o futebol desperta. Deve haver um ponto de encontro entre a experiência emocional do jogo e um contexto mais humanizado.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

O que precisa ser inegociável é o respeito a minorias, a grupos oprimidos pela sociedade no dia a dia. O estádio não pode ser um lugar em que se reproduzam livremente comportamentos que fazem pessoas sofrerem. Antes vistos como normais num estádio, a homofobia, o racismo, a misoginia e o machismo precisam ser atacados, porque são patologias importantes dos nossos tempos.

O mundo mudou da porta pra fora das arenas esportivas. E elas precisam acompanhar a transformação. Embora ainda sejamos parte de uma sociedade repleta de intolerância, os tempos modernos se encarregaram de dar mais voz ao lado oprimido. Vivemos uma era em que há avisos e informações suficientes para entender o limite do aceitável.

A presença de uma mulher entre os atores de um jogo de futebol não pode mais despertar tamanho estranhamento, tampouco induzir ao tratamento dela como uma figura descolada do espetáculo, julgada e ofendida como se não pertencesse àquele ambiente. O Botafogo x Brusque nos lembrou o quanto, em tantos ambientes da nossa vida, o trabalho da mulher é julgado a partir de estereótipos. Nenhum árbitro ou assistente homem ouviria, após seus erros, o tipo de insulto destinado a Katiuscia. Este está reservado às mulheres, por vezes até às que frequentam jogos como espectadoras. Afinal, não faltam relatos de assédio nas arquibancadas do país. E, aliás, não custa lembrar quem sofre a ofensa quando um árbitro homem desagrada a plateia: a mãe dele, uma mulher.

Na noite de quarta-feira, o Botafogo marcou três vezes nos 90 minutos de jogo no estádio Nílton Santos. Mas o gol mais importante veio após o apito final.

Fonte: Blog Carlos Eduardo Mansur

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