Vice-presidente vê mudança de cultura decisiva no Botafogo: “Pra nunca mais voltar pra Série B”

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Vinicius Assumpção estava vestindo uma camisa azul marinho no Estádio Bento Freitas quando o Botafogo conquistou o título da Série B com vitória sobre o Brasil de Pelotas no último domingo. O mesmo uniforme que ele usou em três derrotas do time na temporada. Diferentemente da maioria dos torcedores alvinegros, o vice-presidente do clube não é supersticioso. Acredita que um trabalho bem feito supera qualquer crença. E é essa mudança de cultura interna que o dirigente crê que fez e continuará fazendo a diferença em General Severiano.

– Temos que aprofundar esse processo de reestruturação, é o caminho pra não voltar nunca mais pra Série B. Porque não basta subir, nós subimos outras vezes e caímos. Essa Série B foi diferente de todas as outras, não é porque é a série B mais disputada, mas o Botafogo conseguiu a proeza de ser o primeiro dos grandes a subir depois que mudaram a fórmula de cota de TV. O grande impacto dessa subida foi a gente jogar a Série B com menos R$ 100 milhões. Não é só a cota de TV, é o patrocínio que é menor, a marca desvaloriza, todos os ativos do clube desvalorizam, você perde muita receita.

Representante da presidência em Pelotas, Vinicius recebeu o ge para um papo sobre a campanha do título, que contou com um processo de mudanças internas. Depois de entender que a gestão profissional era a solução para salvar um clube com dívida bilionária, o Botafogo terá um árduo caminho pela frente. O vice-presidente contou como a reorganização administrativa foi fundamental para a equipe sobressair na temporada, falou sobre os planos para 2022, S/A, Estádio Nilton Santos e mais na entrevista que durou cerca de 40 minutos. Leia abaixo:

Qual foi seu papel no departamento de futebol nessa temporada?

– Meu papel foi só fazer o anteparo, ajudar os profissionais. A gente cumpriu religiosamente o que nós tínhamos combinado no processo eleitoral, o presidente Durcesio Mello e eu. Apenas garantimos um ambiente necessário pra que os profissionais pudessem fazer o seu papel. Eu acho que foi a grande receita de sucesso. Eu posso afirmar que não tive qualquer interferência no dia a dia de profissionais, temos até cuidado na hora de entrar no vestiário. Nós pegamos aqui um ambiente muito caótico, além da falta de condição de trabalho, com o ambiente totalmente invasivo, a diretoria invadia muito o departamento de futebol.

– O presidente e eu somos os únicos que ainda entramos no vestiário a pedido dos próprios jogadores e da comissão técnica. Mas a gente faz uma proteção muito forte ao departamento, porque ali é o local de trabalho deles. Eu acho que esse foi o meu papel, de proteção ao trabalho dos profissionais, tentando minimizar o máximo possível a influência da política interna dentro da gestão profissional do clube, que está sendo implementada. Mudar cultura interna não é fácil e acho que estamos conseguindo fazer isso com bastante qualidade.

A profissionalização foi decisiva para o título? O que a diretoria fez internamente que influenciou no alcance do objetivo da temporada?

– Não há grandes conquistas de forma individual. É o processo liderado pelo CEO Jorge Braga, que tem ali hoje três diretores: no futebol o Freeland, o Parrode na área de finanças, o Lênin como diretor de negócios. Montar essa equipe foi o primeiro passo. A partir daí veio a reestruturação. Fazer os setores se entenderem, conversarem, acho que houve uma integração maior, levamos toda a parte administrativa pro Estádio Nilton Santos. Infelizmente precisamos fazer uma redução do quadro pessoal, cortar despesas de todos os lados para poder investir no departamento de futebol, que mesmo assim teve redução no orçamento. Só a folha de pagamento do clube do ano passado era de R$ 5,2 milhões. Hoje está sendo operado em R$ 2,6 milhões, se botar encargos chega a R$ 3 milhões. O processo de reestruturação interna foi o que ajudou a gente chegar a esse objetivo.

– Porque não foi só a contratação de alguns jogadores. Nós fizemos uma mudança muito drástica tanto no dia a dia do clube como no time de futebol. O Freeland pegou um time e teve que mandar embora 22 jogadores e contratar acho que 21, ele trocou o pneu com o carro andando. Fundamental foi essa equipe superqualificada que a gente construiu. Todos os demais departamentos abaixo dessa cabeça estão muito bem desenhados. Hoje todo mundo sabe suas funções, tem meta, começa a entender o que nós queremos pro futuro.

“Mas a situação ainda é muito grave, só a S/A salva a gente. Vamos fechar esse ano no vermelho, o orçamento do ano que vem também não será superavitário. Vai entrar recursos, mas vamos ter que aumentar o investimento também se não nós vamos retornar pra Série B”.

Em que ponto está a S/A? Tem perspectiva de andar mais no ano que vem?

– Tem, eu estou muito animado. Mas a diretoria trabalha com muita cautela sobre esse assunto, porque isso já foi muita decepção pra torcida. Tem um grupo trabalhando com muito sigilo, porque além do mercado exigir o sigilo temos que ter o respeito com a torcida. Estamos trabalhando sem contar com a S/A, tanto que estamos fazendo a estruturação, e o objetivo de todo esse trabalho é pra tornar o clube mais atrativo pra que a gente consiga esse S/A. O objetivo é tentar separar o futebol e montar um processo que não é só vender, eu tenho que trazer o investidor e ter algumas garantias que ele vai me dar resultado.

Em que momento da temporada você pensou que o Botafogo iria subir ou ser campeão?

– Eu talvez seja o primeiro dirigente do Botafogo que não tenha superstição nenhuma, eu sou criticado no Botafogo porque eu não tenho superstição. Eu vi o campeonato muito difícil. A gente pegou a Ponte Preta há poucas rodadas, ficamos a cinco pontos do quinto colocado faltando três rodadas, foi onde eu tive confiança. Sou muito pé atrás. Não foi falta de confiança no trabalho que estava sendo feito, é o futebol. Eu fiquei bastante animado com esse jogo da Ponte Preta. Eu falei “presidente, eu acho que hoje fiquei animado”, aí ele respondeu “só agora?”. Eu sabia que o trabalho estava correto e o caminho era o acesso. A sinergia que criou com a torcida foi sensacional, encaixou tudo, mas eu preferi aguardar mais um pouco.

Qual vai ser o valor da folha salarial em 2022? E a estratégia no mercado?

– A gente ainda está fechando o orçamento, vamos enviar agora pro Conselho Deliberativo, mas eu acredito que vamos pelo menos dobrar. Vamos agir da mesma forma que agimos esse ano. Montamos um time pra jogar a Série B. O Botafogo teve um entendimento pra jogar a Série B. Não é simplesmente o peso da camisa que iria nos levar de volta, nós internamente nos fechamos pra entender esse campeonato e trazer jogadores que poderiam nos ajudar a superar esse desafio. Tentar não fazer loucura, não só loucura financeira, mas também loucura técnica.

– Não vamos sair contratando no início do ano uma porção de jogadores. Os primeiros quatro meses vão ser difíceis financeiramente. O estadual do Rio não é rentável, então a gente tem que ter muita cautela. O setor de análise de desempenho funciona perfeitamente, aliás todos os setores estão funcionando muito bem, departamentos médico e de fisiologia também. Estamos tentando ficar com o time base, alguns nós vamos ter condições de manter e outros talvez não, porque tem valor de mercado. Há um interesse nosso, não tenho a menor dúvida em manter a base desse time.

Como estão as negociações com empresas de material esportivo?

– Estamos recebendo várias propostas e todas estão na mesa sendo avaliadas. É verdade que a Volt é uma das empresas. Por força de contrato a Kappa tem o direito de um prazo pra resposta etc., então ainda não tem decisão. Há um processo negocial e nós estamos vendo o que é melhor pro clube. A gente está tentando entender todas as propostas e achar uma que possa atender toda a nossa demanda, que inclui enxoval, loja, queremos uma empresa que abrace tudo.

O que fazer para o Estádio Nilton Santos ser rentável?

– Tem uma série de coisas, o estádio voltou a ser rentável nesses últimos jogos, mas entre aspas, porque a manutenção é custosa pro clube. No ano passado ele deu um prejuízo de R$ 7 milhões, tudo bem que não tinha torcida, mas quando tinha também estava dando prejuízo. Tinha um erro de operação, mas a manutenção é muito cara, abrir o estádio todo dia custa R$ 20 mil. A operação do estádio melhorou muito. A Leste sempre foi um um setor de entrada problemático pra gente, a logística precisa ser modificada porque é um setor que recebe mais público. No último jogo não teve confusão, melhorou muito. Isso se deve muito ao acompanhamento do Alcimar, que toca a logística do estádio junto com o Lênin. Hoje tem uma equipe que está mais preparada pra entender o estádio nessa logística.

– A gente busca viabilizar o estádio com uma parceria que possa nos ajudar a fazer uma transformação lá, de tentar botar lojas ali dentro, fazer um shopping, mas isso precisa de investimento alto. Estamos buscando parceiro pra trazer shows pra dentro do estádio. Pra ter investimento você tem que ter uma concessão de longo prazo. Nós temos dez anos ainda e estamos tentando aumentar. O Jorge está tratando do mercado junto com a equipe porque a gente precisa ter um parceiro. Mesmo com jogos superavitários, o estádio não se torna superavitário, porque a manutenção dele é enorme.

“O estádio está sendo pensado como um ativo do clube. A gente não quer se desfazer do estádio. A gente vai zerar o déficit dele ano que vem? Acredito que não, mas acho que a gente tem condição de fazer isso. O déficit de R$ 7 milhões com certeza não terá ano que vem”.

A diretoria acertou em muitos momentos, mas um dos episódios confusos da temporada foi a demissão do Chamusca. O que aconteceu ali?

– A gente não tinha a decisão de demitir o Chamusca quando eu fui lá fora do estádio falar com a torcida. Naquele episódio nós fomos lá porque eu acho que a torcida merece o respeito, merece ser ouvida. O Chamusca foi demitido logo depois daquela conversa, no dia seguinte, aí deu a entender que aquela pressão da torcida demitiu o Chamusca, não foi aquilo. Foi um processo de desgaste muito longo, eu não escondo isso de ninguém, o Chamusca foi muito correto com a gente, muito íntegro, saiu com dignidade. É um profissional qualificado que não deu certo, não foi o momento dele, não encaixou.

“A gente saiu daquele processo buscando alguém e conseguimos achar a solução. O meu nome, o do presidente, de todo mundo era o Lisca. E o Freeland, com orientação do setor de análise, apresentou o nome do Enderson com convicção, falou que iria dar certo e que era o cara ideal pra gente. E está aí o resultado”.

Como imagina o clube ao fim da gestão de Durcesio e Vinicius?

– Eu estou deixando minha vida pessoal e profissional de lado, mas é fazendo uma coisa que eu sempre sonhei que era ajudar a mudar a história do Botafogo. Eu quero ter a oportunidade de fazer uma boa gestão e daqui a quatro anos voltar pra arquibancada que é o meu lugar. Eu quero estar na Libertadores viajando que nem eu fiz alguns anos atrás. Eu sou muito presente, eu vou a tudo que é treino, mas eu não sou um cara que fico palpitando. Presença é diferente de palpite. Acho que nós fomos além do que pensamos nesse primeiro ano. A gente pegou um clube muito destruído. Os últimos dez jogos da temporada passada, eu vi o vestiário e falei com o presidente pra gente preparar a Série B. Conseguimos o objetivo.

– Agora o desafio aumenta. Ano que vem a torcida precisa continuar abraçando o clube, tem que parar de olhar a árvore e enxergar a floresta, olhar o que está sendo feito pro futuro. Não se resolve R$ 1 bilhão de dívidas em um ano. A gente está passando por um processo de transformação e esse processo tem as suas variações, mas eu estou muito otimista que a gente vai conseguir superar os desafios.

“Daqui a quatro anos eu tenho certeza que nós vamos estar jogando a Libertadores, e olha que eu sou pé no chão”.

Fonte: ge

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