Zagallo, 90 anos: as histórias e conquistas do único tetracampeão do mundo no futebol

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Na primeira vez em que pisou no Maracanã, Mário Jorge Lobo Zagallo ainda não calçava chuteiras; usava botinas. Tinha 19 anos e era soldado da Polícia do Exército.

Na final da Copa do Mundo de 1950, teve a infelicidade de assistir à derrota do Brasil para o Uruguai da arquibancada – era um dos responsáveis pela segurança do estádio. De capacete, farda verde-oliva e cassetete na cintura, Zagallo foi um dos 199.854 espectadores que, na tarde de 16 de julho, viu, incrédulo, o ponta-direita Gigghia (1926-2015) desempatar o jogo, aos 34 do segundo tempo, e dar o título mundial à “Celeste Olímpica”.

O episódio entrou para a História como “Maracanazo”. “O silêncio era tão grande que, se uma mosca voasse por lá, ouviríamos seu zumbido”, costumava repetir o autor do segundo gol.

Quem também entrou para a História foi Mário Jorge Lobo Zagallo. Aos 90 anos, o “Velho Lobo” detém o título de ser o único tetracampeão do mundo em futebol. Ganhou duas Copas como jogador: a de 1958, na Suécia, e a de 1962, no Chile. Uma como treinador, de 1970, no México, e outra, de 1994, como coordenador técnico. Ainda treinou o Brasil nas Copas de 1974, na Alemanha Ocidental (quarto lugar); de 1998, na França (vice-campeão), e de 2006, na Alemanha (quinto lugar), como assistente técnico.

Em resumo: das 7 Copas que disputou, chegou à final de 5. “Se tem uma palavra que define a trajetória do Zagallo, é determinação”, avalia o jornalista Vanderlei Borges, autor de Zagallo – Um Vencedor (1996), em parceria com Luiz Augusto Erthal. “Há uma dificuldade natural para dimensionar o nível de craque que o Zagallo foi. O fato de jogar ao lado de Pelé e Garrincha ofuscaria o brilho de qualquer outro que não tivesse a estatura dos gênios. Não seria diferente com Zagallo”.

Mário Jorge Lobo Zagallo nasceu em Atalaia, a 48 quilômetros de Maceió (AL), no dia 9 de agosto de 1931. Era ainda um bebê – tinha apenas oito meses! – quando sua família se mudou para o Rio de Janeiro. Nas ruas da Tijuca, bairro da Zona Norte, aprendeu o beabá do futebol: dar passes, driblar zagueiros e fazer gols. Habilidoso, ingressou, em 1947, no time infantil do América e, um ano depois, na equipe juvenil. Queria seguir os passos do pai, Aroldo Cardoso Zagallo, que chegou a vestir a camisa do CRB, de Alagoas.

O patriarca, porém, tinha outros planos para o caçula. Queria que o filho estudasse Contabilidade e, depois de formado, trabalhasse no escritório de representação da fábrica de tecidos de um tio alagoano. Aroldo só mudou de ideia depois de conversar com o primogênito, Fernando, que conseguiu convencê-lo a deixar o irmão seguir seu caminho no futebol. De

“Formiguinha” a “Velho Lobo”

Como juvenil do América, clube que ficava ao lado de sua casa, Zagallo disputou dois campeonatos cariocas: de 1948 e 1949. No segundo, chegou a vice-campeão. Em janeiro de 1950, foi convidado a fazer teste no Flamengo. Foi aprovado. Na mesma época, prestou serviço militar. No clube da Gávea, Zagallo permaneceu por oito anos. Disputou 205 jogos, marcou 29 gols e conquistou o tricampeonato carioca em 1953, 1954 e 1955. Foi nesta época que ganhou o apelido de “Formiguinha”. “Zagallo disputou 45 dos 77 jogos do tricampeonato carioca e marcou sete gols. Já nessa época, mais do que atacante, mostrava seus dotes de armador”, analisa o jornalista Clóvis Martins, autor de Almanaque do Flamengo (2001), em parceria com Roberto Assaf.

Zagallo jogava no Flamengo quando conheceu Alcina, sua futura mulher. Mas escondeu dela que ganhava a vida como jogador de futebol. Ela só veio a descobrir por causa do cunhado, um rubro-negro de carteirinha. “Antigamente, jogador de futebol era considerada uma atividade de malandro”, explica Alcina de Castro Zagallo, em depoimento ao livro Zagallo – Um Vencedor, de Luiz Augusto Erthal e Vanderlei Borges. “Quando a minha família descobriu, proibiram-me de vê-lo e até de falar com ele ao telefone”.

Zagallo e Alcina se casaram no dia 13 de janeiro de 1955 e tiveram cinco filhos. O casamento aconteceu na Paróquia de São Judas Tadeu, o santo padroeiro do Flamengo, mas, Alcina era devota de outro santo: Antônio. A festa do “santo casamenteiro”, a propósito, é comemorada no dia 13 de junho. Dali por diante, o número 13 passou a fazer parte da vida de Zagallo. “Certa vez, ao comprar um apartamento na Barra da Tijuca, exigiu que fosse no 13º andar”, relatam os autores no livro. Alcina morreu em 5 de novembro de 2012, aos 80 anos, vítima de insuficiência respiratória.

“A taça do mundo é nossa!”

Em 1958, Zagallo foi convocado pelo técnico Vicente Feola (1909-1975) para disputar a Copa do Mundo da Suécia. Titular da ponta-esquerda, disputou a posição com outros craques, como Pepe, do Santos, e Canhoteiro, do São Paulo. “Zagallo foi um excelente jogador”, afirma o jornalista Roberto Assaf, autor de Seleção Brasileira 90 anos: 1914-2004 (2004), em parceria com Antônio Carlos Napoleão. “Poucos no futebol defenderam e atacaram com a mesma eficiência”. Na final contra a Suécia, Zagallo evitou que o time da casa fizesse 2 a 0 ao tirar uma bola em cima da linha de meta. Ainda marcou o quarto gol e deu o passe para Pelé marcar o quinto. Resultado: Brasil 5 a 2.

Ao regressar ao Brasil, Zagallo recebeu convite de, pelo menos, três grandes clubes: Portuguesa, Palmeiras e Botafogo. Optou pelo alvinegro carioca, onde jogou ao lado de grandes craques da seleção, como Garrincha (1933-1983), Didi (1928-2001) e Nilton Santos (1925-2013), e ganhou, entre outros títulos, o bicampeonato carioca de 1961 e 1962.

“Zagallo entendeu que deixar o Flamengo e se transferir para o Botafogo significava alcançar o topo de sua carreira pela oportunidade de estar no meio de ‘monstros sagrados'”, afirma Júlio Gracco, autor de Bíblia do Botafogo (2016), em parceria com Octávio Azeredo. “Zagallo ajudou o Botafogo a conquistar dois dos maiores títulos de sua história, além de outros tantos títulos internacionais, como o Torneio de Paris, de 1963”.

Em 1962, Zagallo foi convocado, mais uma vez, para vestir a “amarelinha” da seleção. Dessa vez, o técnico do Brasil era Aymoré Moreira (1912-1998). Na Copa do Chile, muitos dos jogadores, como Djalma Santos (1929-2013), Zito (1932-2015) e Vavá (1934-2002), eram remanescentes da seleção campeã do mundo na Suécia. Logo no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, Pelé sofreu um estiramento do músculo da coxa ao arriscar um chute de fora da área e foi substituído por Amarildo, que marcou três gols em quatro jogos – dois contra a Espanha e um contra a Tchecoslováquia. “Zagallo foi extraordinário dentro e fora de campo. Dentro das quatro linhas, foi um jogador excepcional. Fora delas, é um amigo exemplar”, relata Amarildo Tavares da Silveira, o Amarildo, de 82 anos, parceiro de Zagallo tanto na Seleção Brasileira (1962) quanto no Botafogo (1958-1963). “Jogar ao lado de Zagallo, Garrincha e Didi foi uma escola. Poucos clubes no Brasil conseguiram reunir um timaço daqueles”.

Zagallo jogava no clube da Estrela Solitária quando, em 1965, decidiu se aposentar como jogador e tentar a sorte como treinador. Tinha 34 anos. Em 16 anos, jamais foi expulso de campo. Só na Seleção Brasileira, disputou 35 jogos – 29 vitórias, 4 empates e 2 derrotas. Como técnico, iniciou sua carreira no juvenil do Botafogo. No decorrer dos anos, treinou Botafogo (1966-1968, 1975, 1978 e 1986-1987), Flamengo (1972-1974, 1984-1985 e 2000-2001) e Vasco da Gama (1980-1981 e 1990-1991). Trabalhou, ainda, no Fluminense (1971-1972) e no Bangu (1988-1989), do Rio; na Portuguesa (1999), de São Paulo, e no Al Hilal (1979) e no Al Nassr (1981), da Arábia Saudita.

“Noventa milhões em ação!”

Em março de 1970, a 77 dias do início do Mundial, Zagallo foi convidado pelo então presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange (1916-2016), para substituir João Saldanha (1917-1990). “Ele escala o ministério e eu, a seleção”, respondeu Saldanha ao então presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), que teria pedido a ele para convocar o jogador Dário, o Dadá Maravilha, do Atlético Mineiro.

Aos 39 anos, Zagallo era o mais jovem treinador a assumir o comando da seleção. “Um dos méritos do Zagallo foi montar um time com cinco ‘camisas 10′”, afirma Jair Ventura Filho, o Jairzinho, de 76 anos, se referindo a Pelé, do Santos; Gérson, do São Paulo; Rivellino, do Corinthians; Tostão, do Cruzeiro; e ele, do Botafogo. “Além disso, tivemos três meses de concentração. Quando começou a Copa, não deu outra: seis vitórias em seis jogos. Não houve empate nem derrota. Ganhamos invictos”.

Entre uma Copa e outra, Zagallo treinou seleções de três países: Kuwait (1976-1978), Arábia Saudita (1981-1984) e Emirados Árabes (1989-1990). Em suas aventuras pelo mundo árabe, convidou o preparador físico Admildo Chirol (1934-1998), que recusou a proposta. Já Carlos Alberto Parreira topou o desafio. Entre outras façanhas, Zagallo conquistou o título da Copa do Golfo para a seleção do Kuwait, em 1977, e classificou as seleções da Arábia Saudita para as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, e dos Emirados Árabes para a Copa do Mundo da Itália, em 1990.

“Zagallo sempre soube extrair o melhor de cada atleta. Em suas preleções, esbanjava confiança e serenidade. Não precisava alterar a voz. Todo mundo o respeitava”, recorda Parreira, que trabalhou com Zagallo nas Copas de 1970, 1994 e 2006. “Ele me influenciou muito. Não teria sido treinador se não fosse o Zagallo”.

Em 1994, Parreira assumiu o comando da seleção e convidou Zagallo para ser seu coordenador técnico. Outro remanescente da comissão técnica tricampeã do mundo era o médico Lídio Toledo (1933-2011). Enquanto Parreira dirigia os treinos, Zagallo escalava os jogadores e montava o esquema tático. “Sempre tivemos muitas afinidades. Havia respeito e amizade um pelo outro”, afirma Parreira. “O Zagallo era do tipo que ensaiava três ou quatro jogadas, mas estimulava a criatividade dos jogadores. Dava muita liberdade”.

Vinte e quatro anos depois da conquista definitiva da Taça Jules Rimet, Zagallo voltou a ser campeão do mundo. Dunga, o capitão nos EUA, repetiu o gesto de Bellini (1930-2014) na Suécia, Mauro (1930-2002) no Chile e Carlos Alberto Torres (1944-2016) no México. “Em 1994, Zagallo contagiou uma seleção sem brilho e desacreditada e a transformou em uma equipe aguerrida e confiante”, afirma Vanderlei Borges.

Em 2006, Parreira e Zagalo repetiram a tabelinha na Copa da França, mas não tiveram a mesma sorte. Nas quartas de final, o Brasil perdeu para a França por 1 a 0.

“Vocês vão ter que me engolir!”

Em 1997, Zagallo comandou a seleção na conquista da Copa América. O Brasil venceu os seis jogos: marcou 22 gols e sofreu apenas três. Depois da final de 3 a 1 contra a Bolívia, o treinador foi abordado por dois repórteres e, olhando para a câmera de TV, desabafou, emocionado: “Vocês vão ter que me engolir!”. O desabafo tinha endereço certo: alguns jornalistas esportivos teriam feito pressão para a CBF contratar Vanderlei Luxemburgo no lugar de Zagallo.

Um ano depois, na Copa da França, outra imagem marcante: na semifinal contra a Holanda, pouco antes da disputa dos pênaltis, Zagallo procurou motivar seus jogadores, especialmente o goleiro Taffarel, aos gritos de “Vocês vão ganhar!”. E ganharam mesmo. Taffarel defendeu duas cobranças. Mas, na final, perdeu por 3 a 0 para a França. “Embora tenha chegado à final, a seleção de 1998 nunca convenceu. Jogou um futebol pobre”, afirma o jornalista e locutor esportivo Milton Leite, autor de As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos (2010). “Contra a Turquia, foi ajudado pela arbitragem. E, no episódio envolvendo o Ronaldo, a comissão técnica fez uma lambança. O jogador poderia ter morrido em campo depois de ter tido uma convulsão na manhã do dia da final.”

Zagallo encerrou sua carreira de treinador em 2001. Aos 79 anos, conquistou o tricampeonato carioca pelo Flamengo. “Zagallo atuou como técnico do Flamengo de janeiro de 1972 a novembro de 2001. No clube, alternou bons e maus momentos. Mas, sempre teve prestígio com os dirigentes e o respeito dos jogadores”, avalia Clóvis Martins, de Almanaque do Flamengo (2001).

Na decisão contra o Vasco, o jogador Petkovic marcou um gol de falta, aos 43 do segundo tempo, no ângulo do goleiro Helton. À beira do campo, Zagallo segurava uma imagem de Santo Antônio, seu santo de devoção. Nas arquibancadas, a torcida rubro-negra provocava a cruzmaltina: “Ih, ih, ih… Vai ter que me engolir!”. “Para aquele time, o Zagallo foi mais que um treinador, foi um pai. Soube transmitir serenidade e confiança para o grupo”, recorda o jogador sérvio Dejan Petkovic, de 48 anos. “Se não fosse ele, eu não teria disputado aquele jogo e feito aquele gol, um dos mais importantes da minha carreira. Minha relação com a diretoria não era boa. Mas, o Zagallo teve a coragem de bancar minha escalação”.

Como técnico do Brasil, Zagallo dirigiu a seleção principal em 135 jogos (99 vitórias, 26 empates e 10 derrotas) e a seleção olímpica em 19 (14 vitórias, três empates e duas derrotas). Como coordenador técnico, foram mais 72 jogos (39 vitórias, 25 empates e oito derrotas). “No caso do Zagallo, é impossível falar de fracasso. Chegar às semifinais das Copas de 1974 e 2006, por exemplo, não pode ser classificado como uma derrota. Frustração talvez seja o máximo que se possa dizer”, pondera o jornalista Luiz Augusto Erthal, de Zagallo – Um Vencedor (1996). “Zagallo se tornou uma unanimidade no futebol brasileiro. Uma unanimidade só comparada ao Pelé.

Fonte: UOL

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